quinta-feira, 13 de março de 2008

JESUS FALOU ARAMAICO EM MATEUS 16.18?

Gostaria de saber qual a língua que Jesus falava, e se é comprovadamente certo que ele falou e aramaico em Mateus 16.18, como afirmam os católicos”. (Samuel O. Soares – Niterói, RJ).

RESPOSTA:


Tem sido aceito por muitos teólogos que o aramaico era a língua primária de Jesus e a linguagem predominante da população judia da Palestina. Esta crença repousa no fato de que o Grego, a língua franca da época, nunca substituiu totalmente o aramaico na Palestina. Por exemplo, H. Mudie Draper afirma o seguinte em reposta a afirmação de que o grego poderia ter sido a língua primária de Jesus:

‘Até o século sétimo D.C., o aramaico era a língua de comunicação para o comercio e a diplomacia entre as nações da Mesopotâmia, Ásia Menor e Palestina. A frase ‘os gentios de fala grega’, não significa que este povo falasse apenas grego, mas que no meio da população onde a língua diária era o aramaico, os gentios eram bilíngües... [Aramaico] foi difundido e popular a pelo menos do quarto século A.C. até o nono século D.C. (H. Mudie Draper, “Did Jesus Speak Greek?,” The Expository Times 67 (1995-1996): 317.).

Outros estudiosos, contudo, argumentam que o hebraico poderia muito bem ter sido a língua de Jesus. J. A. Emerton afirma o seguinte:

Jesus foi criado na Galiléia, e é comumente aceito que ele normalmente falava aramaico e que o usava quando ensinava as multidões na Galiléia ou falava com seus discípulos que eram galileus. O aramaico serviria também a seu propósito quando visitava Jerusalém, pois era entendido por pessoas cuja língua vernácula fosse o hebraico... Contudo, se o hebraico era normalmente falado por muitos na judéia, então Jesus talvez tenha feito uso dele com mais freqüência do que supõem muitos dos estudiosos do Novo Testamento. É igualmente possível que o hebraico fosse a língua primária de Jesus, não obstante sua educação Galiléia e a probabilidade de que ensinava em aramaico na Galiléia.' (J. A. Emerton, “Problem of Vernacular Hebrew in the First Century A.D. and the Language of Jesus,” Journal of Theological Studies 24 (1973): 17.).

Conquanto seja verdade que provavelmente pelo primeiro século da era cristã o aramaico fosse a língua primária de muitas regiões judias, é duvidoso que ela tenha sido a língua primária para todo o judeu na Palestina, particularmente aqueles da província da Galiléia (cf. Daniel B. Wallace, Greek Grammar beyond the Basics: An Exegetical Syntax of the New Testament (Grand Rapids: Zondervan, 1996), 24.).

Há muitas boas evidências para se dar apoio ao fato de que o grego era a língua predominante da área. Stanley Portes diz:

'Outros estudiosos tem argumentado fortemente pela predominância do grego no primeiro século na Palestina e, assim, no ministério de Jesus. Seus argumentos, alem de outros fatos se fundamentam em o grego ser a língua franca do Império Romano, a natureza trilíngue do material do deserto judaico, incluindo as cartas gregas de Bar Kokhba, inscrições, ostraca e evidências ossuárias, evidência literária (Ex. os escritos de Josefo), e o mais importante, o fato lingüístico de que o NT ter sido transmitido em grego desde seus mais primitivos documentos. Abbott, Argyle, Smith, Sevenster, N. Turner, Lieberman, Mussies, Treu e Hengel, dentre outros, argumentam de várias formas que o grego estava em uso difundido na multilíngüe sociedade do 1° século na Palestina. Parece não haver nada que impedisse um morador da Palestina de aprender o grego, certamente como uma segunda língua ou mesmo como uma primeira língua. (Stanley Porter, Verbal Aspect in the Greek of the New Testament, with Reference to Tense and Mood (Bern and New York: Peter Lang, 1989), 113.).

O gramático Nigel Turner também concorda que seja posível que Jesus falasse grego; ele sustenta que o grego foi provavelmente a língua que Jesus se comunicou com a mulher Siro fenícia, com o centurião romano e Poncio Pilatos. (Nigel Turner, Grammatical Insights into the New Testament (Edinburgh: Clark Publishers, 1965), 176.).

Robert Gundry argumenta que todas as três línguas estavam em uso na Palestina do primeiro século. Em seu artigo “The Language Milieu of First-Century Palestine”, ele diz o seguinte:

Já existem provas de que todas as três línguas em questão – Hebraico, Aramaico e Grego – eram comumente usadas pelos judeus na Palestina do primeiro século. Não estamos mais lidando com questões incertas ou duvidosas... Escavações realizadas pelos franciscanos no monte das oliveiras desenterraram ossuários datados da época da guerra judaica (66-73 D.C.). Em sete destes ossuários a língua é a hebraica, em onze é aramaica, e em doze deles é grega... É mesmo impressionante fazer tal descoberta no Sul da Palestina. Os estudiosos sempre reconheceram que os judeus da Galiléia, estando mais distante do centro do judaísmo e mais próximos de áreas gentias como a Decápolis e localizada na rota da Via Maris, eram mais helenizados do que os judeus da Judéia. Contudo, as descobertas arqueológicas mostram que mesmo no Sul, o grego era comumente usado. Com isso se torna mais provável ainda que o galileu Jesus e os apóstolos, que eram predominantemente, senão exclusivamente galileus, tenham comumente usado o grego em adição às línguas semíticas. Assim sendo, muito da tradição evangélica podem ter sido originalmente transmitidas tanto em moldes gregos quanto em aramaico e hebraico... Não podemos simplesmente trabalhar com o pressuposto de que tudo estivesse originalmente em aramaico, que deveríamos procurar equivalentes em aramaico quando possível, e que onde os equivalentes em aramaico não poder ser traçado, devemos rejeitar a autenticidade.” (Robert Gundry, “The Language Milieu in First-Century Palestine,” JBL 83 (1964): 405-408).

Portanto, é impressionante que o grego fosse usado muito mais do que tradicionalmente se pensava.
Philip Edgcumbe Hughes assim diz:

As evidências sociológicas, lingüísticas e arqueológicas indicam que a Palestina era largamente multilíngüe, com o aramaico e o grego em uso bastante difundido, o hebraico como uma íngua escrita (e possivelmente como língua vernácula), e o latim como língua em casos políticos e administrativos." (Porter, Verbal Aspect, 113.).

Contudo, Moulton argumenta que apesar do uso de semitismo em Mateus, é improvável que os verssos 17-19 (ou qualquer outro verso desta questão) fossem tradução do aramaico. Ele sustenta que o estilo de Mateus é muito polido e muito entremeado de orações subordinadas e genitivos absolutos para se tratar de uma tradução. (James Moulton, A Greek Grammar of the New Testament , vol. 4, Style, ed. Nigel Turner (Edinburgh: T & T Clark, 1906), 37.).

Todavia, mesmo que Jesus fosse trilíngue, isto necessariamnete significa que ele falou grego em Mateus 16.17-19? De acordo com Poter, há evidências suficiente para sugerir que Jesus falou mesmo em grego nesta ocasião. Primeiro, Potter argumenta que enquanto o plural de ‘ouiranov’ é comum em uso semítico, deve ser lembrado também que a forma plural da palavra é usado por um número considerável de autores gregos extra-bíblico, incluindo Aristóteles, e que o próprio Mateus usa tanto a forma singular quanto plural da palavra (cf. 5.34-35; 6.10.19-20;18.18). (Stanley Porter, “Did Jesus Ever Teach in Greek?,” 234).
Segundo, Potter diz que o uso de ‘adhes’ pode também sugerir que Jesus falava grego aqui. Embora haja muitos paralelos a esta frase no Velho Testamento (Jo 17.16 e Is 38.10), há muitos mais paralelos na literatura grega secular, já que a imagem do Hades é tradicionalmente clássica (cf. Homer, Il. 9.312; Od. 11.277; Euripides, Hec. 1).
Terceiro, se a confissão de Pedro ocorre em Cesaréia de Filipe, então é totalmente possível que Jesus estivesse falando grego aqui. Cesaréia de Filipe era uma grande cidade gentia antes de Herodes o Grande reconstruí-la ou Herodes Filipe renomeá-la. Assim, esta cidade teria sido o lugar mais apropriado para o uso do grego do que qualquer outro lugar na Palestina.


Ainda que tais argumentos não provem que Jesus tenha falado o ‘logion’ em grego, pelo menos eles levantam a possibilidade de que o grego, e não o aramaico pode ter sido falado aqui e em outros lugares durante o ministério de Jesus.

domingo, 9 de março de 2008

OS CRISTÃOS PRIMITIVOS ACREDITAVAM NUMA 'PRESENÇA REAL' DE JESUS NA EUCARISTIA?


"O site 'veritatis esplendor' insiste que nós protestantes não podemos nos identificar com a igreja primitiva porque, dentre outras coisas, eles acreditavam na 'presença real' de Cristo na Eucaristia. O que dizer?" (Anderson P. Amoroso - São Paulo-SP).

RESPOSTA
A doutrina relacionada a celebração da Ceia do Senhor, não entrou em discussão nos primeiros séculos, permanecendo indefinida e obscura. A igreja primitiva levou mais em consideração o valor da participação nesta ordenança do que uma noção lógica a seu respeito. A igreja a considerava o mais sagrado mistério da adoração cristã, e concordemente era celebrada com a mais profunda devoção, sem inquirir na maneira em que Cristo estava presente nem na relação dos sinais sensíveis de sua carne e sangue. Não é histórico sustentar nenhuma das teorias anterior com base nesta era; muito embora isto tenha sido feito com freqüência em discussões polêmicas e apologéticas sobre o assunto.

Contudo, percebe-se que, assim como faz com os textos das Escrituras, o romanismo distorce também os ensinamentos dos primeiros cristãos para fazê–los parecer concordar com suas heresias. Tais distorções consistem em acrescentar textos aos escritos originais destes escritores, e omitir outros que demonstram o verdadeiro sentido das suas palavras. Analizando os textos apresentados no artigo do site, são fraglantes os acrécimos e as omissões. Senão vejamos:

Inácio de Antioquia (+110) e a Ceia

Gostam de citar as seguintes passagens de Inácio de Antioquia:

"Não me agradam comida passageira, nem prazeres desta vida. Quero pão de Deus que é carne de Jesus Cristo, da descendência de Davi, e como bebida quero o sangue d'Ele, que é Amor incorruptível".(Aos Romanos 7).

“Sede solícitos em tomar parte numa só Eucaristia, porquanto uma é a carne de Nosso Senhor Jesus Cristo, um o cálice para a união com Seu sangue; um o altar, assim como também um é o Bispo, junto com seu presbitério e diáconos, aliás meus colegas de serviço.” (Aos Filadelfienses 4).

Com isso os romanos querem nos fazer crer que Inácio falava literalmente e não entendem que se referia simbolicamente à eucaristia como a carne de Cristo.

Mas quanto a fé de Inácio, há sérias razões para se por em dúvida uma crença literal na eucaristia em seus escritos, e isto o catolicismo não mostra.
Por exemplo, para Inácio a 'carne do Senhor' era o próprio 'Evangelho' e em outras ocasiões ele afirma que ela seja 'a fé':
'Refugiando me no evangelho como na carne de Jesus e nos apóstolos, como também nos presbíteros da Igreja'(Fil 5.1);

"Portanto, armaivos com doce paciência e recriaivos na fé, que é a carne do Senhor'(Tra 8.1).
Com relação ao 'sangue' ele diz que este é 'o amor incorruptível:

'E por bebida desejo o sangue dele que é o amor incorruptível'(Rom 7.3).

Além disso, ele também se refere à eucaristia como 'pão':

'quem não está junto do altar está privado do pão de Deus'(Ef 4.2 e 20.2).

De maneira que, se ao se referia a eucaristia como ‘carne’ faz dele crente na 'presença real', o fato de chamá-la 'pão' faz dele crente na presença simbólica.

Outra prova de que Inácio não ensinava uma ‘presença literal’ de Jesus no pão da ceia, é que ele não cria que Jesus estivesse ‘presente’ em seu altar como dizem os romanos com relação a sua ‘eucaristia’. De fato, na sua Epístola aos Tralianos, ele diz:

‘Nada do que é visível é bom. De fato, nosso Deus Jesus Cristo, estando agora com o seu Pai, torna-se manifesto ainda mais’ (Tra 3.3).

‘Correi todos juntos como ao único templo de Deus, ao redor do único altar, em torno do único Jesus, que saiu do único Pai e que era único em si e para ele voltou’ (Tra 8.1).


Justino de Roma (+165).

Também de Justino os romanos alardeiam as seguintes passagens:

"Esta comida nós chamamos Eucaristia, da qual ninguém é permitido participar, exceto o que creia que as coisas nós ensinamos são verdadeiras, e tenha recebido o batismo para perdão de pecados e renascimento, e que vive como Cristo nos ordenou. Nós não recebemos essas espécies como pão comum ou bebida comum; mas como Cristo Jesus nosso Salvador, que se encarnou pela Palavra de Deus, se fez carne e sangue para nossa salvação, assim também nós temos ensinado que o alimento consagrado pela Palavra da oração que vem dele, de que a carne e o sangue são, por transformação, a carne e sangue daquele Jesus Encarnado." (I Apologia 66).

Aqui concordamos com o que Justino ensina; o pão da ceia não é um pão qualquer mas algo santificado pelo simbolismo que representa, a saber, o corpo de Cristo. Mas devemos deduzir como fazem os católicos, que Justino acreditava numa presença literal de Jesus no pão da ceia? Obviamente que não, pois veja o que ele ensina em seu ‘Diálogo com Trifão’:

‘Portanto, é evidente que nesta profecia ele também fala sobre o pão que nosso Cristo nos mandou celebrar como memória dele se ter feito homem por amor dos que nele crêem – pelos quais também se tornou passível – e do cálice que, como lembrança do seu sangue, nos mandou igualmente consagrar com ação de graças’. (Dial. 70.4).

Se para Justino, o pão é ‘memória de sua encarnação’ e o cálice é ‘lembrança de seu sangue’ e não ‘seu sangue’, tal fato demonstra que o mártir de Roma não ensinava uma presença literal como apregoam os romanistas a seu respeito.

Irineu de Lião (+ c.200).

Dos textos de Irineu de Lião marcados pelo fragor da batalha contra as heresias gnósticas, o catolicismo tenta fazer crer a seus fiéis que a crença na ‘presença’ literal da eucaristia era certa pra tal crente de Lião. No entanto, as palavras de Irineu se confundem com a sua tentativa de rebater a principal idéia gnóstica que dizia que Jesus não havia se encarnado literalmente. Se aproveitando desta dualidade, o romanismo insiste em fazer de Irineu, um ‘católico romano’ no que tange à eucaristia, o que não passa de pura distorção textual e anacrônica. Tais são as passagens de Irineu:

‘Aconselhando também aos seus discípulos a oferecerem a Deus as primícias das suas criaturas, não porque precisasse, mas porque eles não se mostrassem inoperosos e ingratos, tomou o pão que deriva da criação, deu graças, dizendo: ‘Isto é o meu corpo’; do mesmo modo tomou o cálice, que provém, como nós da criação, o declarou seu sangue e estabeleceu a nova oblação do Novo Testamento’ (Contra as Heresias IV.17.5).

Ora, Irineu está descrevendo aqui tão somente a narrativa da Santa Ceia onde Jesus estabeleceu o pão e o cálice como seu corpo e sangue. Nós também cremos nisso. A questão é: estabeleceu como símbolo ou literalmente? Isso Irineu não esclareceu aqui, pelo menos não nesta tradução, feita dos originais pelo católico Lourenço da Costa, da Paulus Editora.

É um fato que muitos apologistas romanos citam textos imprecisos, como que repetidos de fontes não confiáveis, sempre com distorções textuais. Desta forma, fica fácil provar o que quer que seja.

‘Se, portanto, o cálice que foi misturado e o pão que foi produzido recebem a palavra de Deus e se tornam a Eucaristia, isto é, o sangue e o corpo de Cristo, e se por eles cresce e frutifica a substância da nossa carne, como podem pretender que a carne seja incapaz de receber o dom de Deus, que consiste na vida eterna, quando ela é alimentada pelo sangue e pelo corpo de Cristo, e é membro deste corpo? Como diz o Apóstolo Paulo na carta aos Efésios: “Somos membros de seu corpo, formados pela sua carne e pelos seus ossos”; e não fala de algum homem pneumático e invisível – ‘porque o espírito não tem osso nem carne’ – mas da estrutura do homem verdadeiro, feito carne, nervos e ossos, alimentado pelo cálice que é o sangue de Cristo e é fortificado pelo pão que é o seu corpo.
Como a cepa de videira plantada na terra frutifica no seu tempo e o grão de trigo caindo na terra, decompondo-se, ressurge multiplicado pelo Espírito de Deus que sustenta todas as coisas e que, pela inteligência, são postas ao serviço do homem e, recebendo a palavra de Deus, se tornam eucaristia, isto é, corpo e sangue de Cristo, da mesma forma os nossos corpos, alimentados por esta eucaristia, depois de ser deposto na terra e se terem decomposto, ressuscitarão...” (Cont. Heresias V.2.3).

Aqui se fundem as expressões sobre a eucaristia com as noções gnósticas de total desprezo do que é carnal. Por isso, deve ficar claro que as seguintes expressões não se referem aos elementos da Ceia:

‘como podem pretender que a carne seja incapaz de receber o dom de Deus, que consiste na vida eterna...’

‘Como diz o Apóstolo Paulo na carta aos Efésios: “Somos membros de seu corpo, formados pela sua carne e pelos seus ossos”; e não fala de algum homem pneumático e invisível – ‘porque o espírito não tem osso nem carne’ – mas da estrutura do homem verdadeiro, feito carne, nervos e ossos,..’

As frases que se relacionam com a nossa questão são as seguintes:


‘Se, portanto, o cálice que foi misturado e o pão que foi produzido recebem a palavra de Deus e se tornam a Eucaristia, isto é, o sangue e o corpo de Cristo,...’

‘... quando ela é alimentada pelo sangue e pelo corpo de Cristo,...’

‘ alimentado pelo cálice que é o sangue de Cristo e é fortificado pelo pão que é o seu corpo.’

‘recebendo a palavra de Deus, se tornam eucaristia, isto é, corpo e sangue de Cristo’.

Como podemos ver, por repetidas vezes Irineu se refere ao pão e ao cálice como sendo a carne e o sangue de Cristo. Contudo, dificilmente isso nos garantiria a sua fé literal na eucaristia conforme a doutrina romana. De fato, em um fragmento seu, ele chama o pão e o vinho, após a consagração, de ‘antítipos’ implicando a continuada distinção entre os elementos da ceia e das substâncias do corpo e do sangue de Cristo:

“E então, quando nós aperfeiçoamos a oblação, invocamos o Espírito Santo, e aquele que pode exibi este sacrifício, ambos pão e corpo de Cristo, e o cálice e sangue de Cristo, a fim de que os que receberem estes antítipos possa receber remissão de pecados e vida eterna. Estas pessoa que executam estas oblações em memória do Senhor, não caem na visões judias, mas, agindo de maneira espiritual, deverão ser chamados de filhos da sabedoria” (Fragmento XXXVII).

As palavras ‘antítipos’, ‘em memória do Senhor’ e ‘agindo de maneira espiritual’ são indicações de que Irineu falava de modo figurado quando se refere ao pão e o cálice como corpo e sangue de Cristo.

Irineu também ironizou os gnósticos que acreditavam que alguma ‘graça’ transformadora descia sobre os elementos da ceia e os tornava ‘literalmente’ em corpo e sangue. Para isso, armavam artifícios para ludibriar o povo:

“Fingindo consagrar no cálice uma bebida misturada com vinho e pronunciando longas invocações, a faz aparecer de cor púrpura ou vermelha. Assim, pode-se pensar que a Graça, por causa da sua invocação, depositou naquele cálice o seu sangue, vindo das regiões supernas.” (Cont. Heresias I.13,2).

O que não diria Irineu se tivesse conhecimento das coisas que os romanos ensinam sobre o termo de ‘transubstanciação’.


Tertuliano (+c. 240)

Muito significante também são as opiniões de Tertuliano sobre a ceia, que dão provas suficientes que não havia uma ‘crença à moda romana’. Eis o que ensina Tertuliano:

‘Porque assim naquele que é também vosso evangelho o anunciou Deus, chamando ao pão o seu corpo; para que daqui também entendas que deu a figura de pão ao seu corpo...’ (Contra Marcião III.19).

‘Tendo declarado, pois que Ele com grande ansiedade tinha desejado comer a páscoa, como sua, pois é indigno que Deus desejasse algo alheio, tendo tomado o pão e o distribuído aos discípulos, fez dele seu corpo, dizendo: “Este é o meu corpo”, isto é “figura do meu corpo”. Mas não teria sido figura se não houvesse corpo verdadeiro. Pois uma coisa vã como um fantasma não podia conter a figura’ (Cont. Marcião IV. 40).

Como se vê, Tertuliano nega que uma doutrina literal da presença de Cristo na Ceia fosse ensinada na igreja primitiva.


Clemente de Alexandria (215).

Cita-se as seguintes passagens de Clemente de Alexandria para deduzir a sua crença numa eucaristia à estilo de Roma:

‘ Sangue do Senhor, realmente, é duplo. Há Seu Sangue corpóreo, por que nós somos redimidos da corrupção; e Seu Sangue espiritual, com que nós somos ungido. Que significa: beber o Sangue de Jesus é compartilhar sua imortalidade. O vigor da Palavra é o Espírito somente como o sangue é o vigor do corpo. Do mesmo modo, como vinho é misturado com água, assim é o Espírito com o homem. O Único, o Vinho e Água nutridos na fé, enquanto o outro, o Espírito, conduzindo-nos para a imortalidade. A união de ambos, entretanto, - da bebida e da Palavra, - é chamada Eucaristia, digna de louvor e presente excelente. Aqueles que partilham disto na fé são santificados no corpo e na alma. Pela vontade do Pai, a mistura divina, homem, está misticamente unida ao Espírito e à Palavra.’ (Pedagogo II.2; 19.4).

Veja que estas palavras do sábio de Alexandria acabam depondo contra as próprias investidas romanas. Ora, ele fale que o sangue do Senhor é duplo: o corpóreo que nos redimiu na cruz, e o espiritual que é o da ceia. Com isso nós concordamos plenamente. Acontece que o catolicismo ensina que ambos são um só, contrariando assim, o que ensina Clemente.

Observe o que ele ensina no mesmo livro supra citado:

Agora, vejam as distorções que se fazem dos textos de Clemente com o fim de faze-lo rezar na cartilha romana:

‘ Palavra é tudo para uma criança: ambos Pai e Mãe, ambos Instrutor e Enfermeira. 'Comam minha Carne,' Ele diz, 'e Bebam meu Sangue.' O Senhor nos nutre com esses nutrientes íntimos. Ele nos entrega Sua Carne, e nos dá Seu Sangue; e nada é escasso para o crescimento de Suas crianças. Oh mistério incrível!’ (Pedagogo I.)

Qualquer um poderia crer que aqui, o alexandrino está expressando a fé literal nos elementos da ceia. No entanto, no mesmo capítulo do mesmo livro explica como interpreta tais palavras:

“De muitos modos o Verbo é descrito figurativamente, como alimento, como carne, como refeição; é pão, é sangue e leite. O Senhor é tudo isso para dar gozo a nós que temos crido nele” (Pedagogo I. 6).

Assim, conforme ele mesmo explica, ‘figurativamente’ e que devem ser entendidas as palavras do mestre quando se diz ‘pão e sangue’, e não literalmente como propõe o romanismo.

Orígenis (+253)
Também Orígenis falou muita coisa sobre o pão e o cálice da ceia, que os católicos se valem para afirmar a sua crença na suposta ‘presença real’. Entretanto, assim como ocorre com os escritos dos pais da igreja supra citados, se dá também com os de Orígenis. O catolicismo cita suas palavras que parecem explicação literal do corpo e sangue de cristo na ceia, omitindo outras onde afirma tratar de coisas simbólicas.

“Não é a matéria do pão mas a palavra dita sobre ele, ao que ajuda ao que não o come indignamente. Tudo acerca do corpo típico e simbólico” (Comentário sobre Mateus 15.10-20).


Como podemos ver, uma crença na eucaristia na igreja primitiva ensinada como quer o catolicismo, só pode ser conclusiva se desprezarmos os indícios de que tais escritores falavam de forma figurada. Por muito tempo a igreja de Roma apresentou textos em detrimentos de outros que esclareciam o verdadeiro sentido de suas palavras. Tudo para esconder uma dura realidade: os primeiros cristãos não criam em uma ‘presença real’ do corpo e sangue de Cristo nos elementos da Santa Ceia. Por isso, podemos ver que a igreja de Roma não se identifica, de modo algum, com a igreja primitiva.

quinta-feira, 6 de março de 2008

A TEOLOGIA PROTESTANTE CONCORDA QUE PEDRO É A 'PETRA?


É conhecida a polêmica interpretação que tem sido atribuída a Mateus 16.18 sobre a ‘pedra’ que Jesus menciona como alicerce da igreja. Em todo e qualquer debate em que o assunto seja o papado ou o ‘primado de Pedro’, é comum que os evangélicos em geral faça uso de uma antiga argumentação utilizada principalmente pelos Reformadores onde se afirma que Jesus fundou a sua igreja não sobre ‘petros’ (Pedro) mas sobre a ‘petra’ (Jesus ou a confissão de Pedro).

Enquanto o argumento evangélico desde os tempos da Reforma tem sido que o uso dos termos ‘petros’ e ‘petra’ foi intencionalmente utilizado pelo evangelista com fim de fazer distinção entre Pedro e Cristo (ou a confissão de Sua messiandade), os católicos romanos alegam que o motivo do uso de tais termos foi meramente gramatical, sendo os dois termos ‘sinônimos’.

As duas opiniões se mantiveram em intensa discussão até bem pouco tempo, quando um teólogo luterano de renome, o francês Oscar Cullman (+1999) passou a concordar com a argumentação católica romana de que a ‘petra’ a que Mateus se referia seria realmente Pedro. Após ele, muitos outros peritos protestantes passaram a concordar com esta interpretação, até então, clássica no catolicismo romano.

Por sua teologia tão próxima a do romanismo, Cullman sempre foi muito elogiado pelos teólogos romanos, tornando-se inclusive, amigo do papa Paulo VI de quem recebeu ‘menção honrosa’. Por tudo isso, sempre que é alegado o distinto uso de ‘petros - petra’ para se negar ser Pedro a ‘pedra’ sobre a qual a igreja foi edificada, os católicos se valem das afirmações de Cullman para sustentar que até os teólogos protestantes concordam com a sua interpretação a este respeito.



UMA INTERPRETAÇÃO ANTIGA

Quando o assunto é a exegeses de Mateus 16.18 não se pode esquecer que a interpretação da ‘petra’ como sendo o próprio Cristo ou a fé ou a confissão de Pedro (‘Tu és o Cristo, o Filho do Deus Vivo’) é a mais antiga que se tem notícia na história da igreja. De maneira que, pensar que tal interpretação tenha surgido com os reformadores é ignorar a opinião de grandes vultos da fé primitiva. De fato, Origenis, Ambrosio, Epifânio de Salamina, João Crisóstomo e Agostinho de Hipona, sustentaram ser a referida ‘petra’ a fé de Pedro, sendo que Agostinho e Epifânio oscilaram entre o próprio Pedro e sua confissão.

AS AFIRMAÇÕES DE CULLMAN

Cullman de modo algum pôs fim ao impasse na perícope de Mateus 16.18., e apesar de ter sido um grande teólogo e doutor do Novo Testamento, ainda assim observa-se falhas em sua posição. Ele demonstrou que algumas vezes no grego clássico a distinção entre ‘petros’ e ‘petra’ nem sempre era rigorosamente observada. Baseado nisso, afirmou que Mateus se utilizou dos dois termos como sinônimos, pois sendo ‘petra’ uma palavra feminina, não era, segundo ele, adequada para se referir a um homem, concordando assim com a interpretação romana. Para Cullman, portanto, ‘petros’ e ‘petra’ seriam meros sinônimos.

Entretanto, ainda que se possa encontrar raríssimas exceções no grego clássico, via de regra, a distinção semântica entre ‘petros’ e ‘petra’ é evidente e marcadamente abundante. Isto impede que consideremos ‘petros’ como sinônimo de ‘petra’ sem cairmos em grandes dificuldades com o grego clássico. No chamado grego ‘koinê’, que é o grego do Novo Testamento, não existe a mínima indicação de que os termos em questão eram usados como sinônimos. Basta constatar que todas as vezes que os autores do Novo Testamento fazem uso de ‘petros’ e ‘petra’, ambos são sempre substantivos semanticamente distintos, conforme o uso geral no grego clássico. Desta forma, é muito improvável que Mateus tenha se utilizado de tais termos como sinônimos, haja visto que tal procedimento não era comum quer no grego clássico ou no ‘koinê’ de sua época.

Segundo a teologia romana aceita por Cullman, o que teria motivado em Mateus o uso de ‘petros’ e ‘petra’ como termos sinônimos seria o fato de um termo de gênero feminino (petra) não ser adequado para se referir a um homem. O que chama a atenção nesta afirmação é que tal procedimento parece ter sido deixado de lado em outras ocasiões do Novo Testamento. Veja, por exemplo, em João 14.6 onde Jesus diz: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Caminho (hódos), verdade (aletéia) e vida (Zoé) são todos termos femininos em grego. Ora, se Jesus pôde dizer: “Eu sou a ‘zoé’”, também poderia dizer de Pedro: ‘Tu és a Petra’. Veja outros usos de termos femininos para pessoas do gênero masculino em João 11.25; 1 Cor 1.24; 10.4. De maneira que qualquer que tenha sido o motivo do uso de termos diferentes em Mateus 16.18, este não parece ter sido o que os católicos alegam.

Desta forma, vemos que as conclusões de Cullman de modo algum dirimiram a questão do uso de ‘petros’ e ‘petra’ em Mateus 16.18. Assim, não importa se vários estudiosos renomados concordem ou não com as interpretações católicas, posto que nós evangélicos e protestantes não julgamos a quem quer que seja ‘infalível’ em suas interpretações. A maior prova disso é que o próprio Cullman pôde livremente discordar das opiniões a este respeito do próprio Martinho Lutero, embora fosse ele mesmo luterano.

domingo, 27 de janeiro de 2008

A "SOLA SCRIPTURAE" E O CATOLICISMO



A Igreja Católica Romana desde a época da Reforma tem se levantado contra o fato da Escritura ser a única fonte autorizada da fé para os cristãos. Para o Catolicismo, a Tradição Oral , bem como as decisões conciliares e os pronunciamentos papais 'ex-catedra' possuem a mesma autoridade que a Bíblia. Neste debate procurei responder os principais argumentos usados pelos católicos para negar a única e infalível verdade bíblica. Para não perder a sua originalidade, conservei o tom coloquial, apenas corrigindo alguns erros gramaticais. Os escritos em azul negrito pertencem aos oponentes católicos.




DEBATE SOBRE ‘SOLA SCRIPTURA’


“Onde está escrito na Bíblia que ela é a ‘única’ regra de fé e prática?”

Sua pergunta foi muito clara e pede uma resposta também clara e objetiva. Pois bem. Pretendo responder-lhe como se pede. Antes, porém, gostaria que você me respondesse se possível, também de forma clara e objetiva, a seguinte pergunta:

Onde está escrito na Bíblia que existe outra fonte autorizada de fé e prática, no mesmo pé de igualdade com ela, a própria Bíblia?

Quando digo “no mesmo pé de igualdade” refiro-me aos mesmos atributos que a Bíblia testemunha em favor de si mesma e que você, como um bom católico que é, deve conhecer muito bem, dentre os quais alguns deles são: ‘viva, eficaz e penetrante’ (Hb 4.12), ‘divinamente inspirada por Deus’ e ‘capaz de aperfeiçoar’ (2 Tm 3.17), ignorá-la constitui um ‘erro’ (Mt 22.29)... Se existe outra fonte de fé igual a bíblia, estes atributos também lhe são inerentes e a própria bíblia não se furtaria em mostrar.

Assim sendo, mostre-me na Bíblia que outra fonte autorizada de fé e prática possui estas mesmas qualidades que eu prometo também responder, sem rodeios, a sua pergunta.

Resposta:

“Com prazer! ‘Então, irmãos, estai firmes e retendes as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa. ’ (2 Tes 2.15). Paulo se refere a dois instrumentos que foram úteis para ensinar: a palavra, ou seja, aquilo que foi pregado de viva voz, e a epístola, ou seja, aquilo que ele pôs por escrito. Ambos possuem os mesmos atributos pois serviram para ensinar, e para ambos Paulo pede firmeza. Além disso, sabemos que antes de ter sido escrito, o evangelho foi pregado de viva voz, o que dá à ‘transmissão oral’ valor superior ao que, apenas de forma circunstancial foi escrito. Jesus se quer mandou que se escrevesse alguma coisa, mas disse: ‘ide e pregai o evangelho’, ou seja, oralmente.”

Meu caro amigo, a sua resposta foi insuficiente e não respondeu a minha pergunta. Primeiro que, como Apóstolo que era, é lógico que os ensinos verbais de Paulo eram inspirados. Segundo que não há ligação entre os ensinos verbais de Paulo e a suposta ‘tradição’ que sua igreja afirma possuir. Mas, vamos supor que se tratasse de duas coisas distintas. Acaso seu argumento teria peso? Veja bem: você considera que, pelo fato de duas coisas serem usadas para uma mesma finalidade, sejam elas iguais em atributos e qualidades? Certamente que não são, senão vejamos:

“Muitas vezes e de modo diverso falou Deus, outrora, aos pais pelos profetas; agora, nestes dias que são os últimos, falou-nos por meio do Filho” (Hb 1.1s). Por ter Deus nos falado tanto por meio dos profetas quanto por meio do seu Filho, isto significa que os profetas possuíam as mesmas qualidades e atributos do Filho? Certamente que não. Como católico é impossível que você venha a afirmar isso.

O máximo que se pode deduzir do texto que você citou é que tanto as palavras orais de Paulo, como fonte autorizada da revelação que ele era, quanto as suas epístolas, eram úteis para ensinar. Mas Paulo morreu no ano 65 d.C. e não temos mais sua viva voz. Porém, temos por escrito o que ele escreveu. Como diz um velho provérbio latino: ‘Verba volant, scripta manet’: As palavras voam, a escrita permanece.

Quanto ao fato da pregação do evangelho ter se dado inicialmente de forma oral, ninguém nega isso. Mas, apesar disso não ter relação nenhuma com o que eu te perguntei, quero analisar com você esta questão.

Pense bem: Se o fato da pregação ter se dado inicialmente de forma oral significasse que ela fosse maior, ou pelo menos igual ao que foi escrito, pra que então os apóstolos teriam perdido tanto tempo para escrever seus ensinamentos? Se o que foi pregado oralmente por eles tivesse o efeito e a importância maior que você dá, pôr por escrito o que foi pregado de viva voz seria pura perda de tempo, sem falar que, escrever naquela época era algo muito dispendioso. Eles nem ficariam com peso algum na consciência porque, como você disse: se quer Jesus mandou escrever.

Mas eu posso te provar que eles resolveram escrever por considerar que a pregação de forma oral, apesar de sua importância inicial, era insuficiente para dar certeza ao que era pregado. Veja:

“Pareceu-me a mim também conveniente descreve-los a ti, oh excelentíssimo Teófilo, por sua ordem, havendo já me informado minuciosamente de tudo desde o princípio, para que conheças a certeza (do grego ‘asfaléia’) das coisas que já estás informado” (Lc 1.3s). Considere o seguinte: Se foi necessário pôr por escrito para dar certeza ao que Teófilo havia ouvido inicialmente de forma oral, é óbvio que esta mesma pregação oral, sem deixar de ser importante, não era de modo algum suficiente em si mesma.
Mas se o evangelho escrito é necessário para ‘dar certeza’ à pregação oral, eu pergunto: E evangelho escrito? Precisa do auxílio do que foi pregado oralmente ou é suficiente em si mesmo? Para ter a resposta, analisemos este trecho:

“Jesus operou também em presença de seus discípulos muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro (mas que se encontravam certamente na pregação oral). Estes, porém, foram escritos para que creias que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhas a vida em seu nome” (Jo 20.30s).

Observe que, mesmo muitos relatos tendo ficado de fora de seu evangelho escrito, João declara que o que ele escreveu, por si só é suficiente para que se creia e se viva em nome de Jesus.

Em resumo, podemos dizer que a Escritura é suficientes mesmo sem a transmissão oral. Ma a transmissão oral carece da certeza do que foi escrito. Qual deles é o maior?

Mas quanto a sua primeira pergunta, eu quero te responder, mas preciso que você responda antes a minha de forma satisfatória. Estou no aguardo.




Resposta:

“Se pra você o fato da pregação oral e da palavra escrita terem sido usadas para o mesmo fim não indica que elas possuem os mesmos atributos e capacidades, me diga, de que outra maneira posso responder a sua pergunta? Que tipo de prova você gostaria de ouvir para te mostrar a existência de outra fonte de fé além da bíblia? E se a pregação oral era ineficaz e insuficiente como você diz, por que Jesus nunca mandou que seus discípulos escrevessem nada?”

Meu amado, não fique chateado comigo. Como você pode rever, a minha pergunta foi muito clara. Mas vou te explicar como você pode me responder de forma satisfatória. Eu perguntei o seguinte: Onde está escrito na Bíblia que existe outra fonte autorizada de fé e prática, no mesmo pé de igualdade com ela, a própria Bíblia?

Após isso, eu até te indiquei a forma satisfatória de responder, que era: mostrar na própria bíblia, que outra fonte autorizada de fé e prática possui as mesmas qualidades que eu demonstrei acima. Desta forma a sua resposta deveria ser assim: ‘além da bíblia, está escrito que ‘tal fonte’ é divinamente inspirada por Deus, ‘tal fonte’ é viva e eficaz, ‘tal fonte’ é útil para aperfeiçoar o homem e que desconhecer ‘tal fonte’ é um erro’. Basta me mostrar isso dentro da própria bíblia como eu pedi. Por exemplo, se você acha que a tradição oral que a sua igreja diz ‘subsistir nela’ é igual ou superior a bíblia, basta me mostrar na própria bíblia, os atributos desta suposta tradição, pois como eu havia dito, se for realmente assim, a bíblia certamente dirá e a igualará a si mesma em atributos. Você não acha que isso é sensato?

Quanto a sua pergunta: ‘Por que Jesus nunca mandou que seus discípulos escrevessem nada?’ Eu diria que você parece não ter lido ainda o livro de Apocalipse. Veja o que Jesus disse a João: “E o que está assentado sobre o trono disse: Eis que faço novas todas as coisas. E disse-me: Escreve; porque estas coisas são verdadeiras e fiéis” (Ap.21.5). Só para se ter uma idéia, ao todo Jesus mandou João escrever dez vezes (cf. Ap 1.11,19; 2.1,8 12,18; 3.1,7 14). Portanto, não é verdade que Jesus ‘nunca’ mandou escrever nada.

Mas se você se refere somente à ordem da grande comissão dada por Jesus em Mateus 28.19s. Veja: Jesus mandou fazer discípulos todas as nações batizando-os e ‘ensinado-os’ (do grego didasko). Neste verbo ‘ensinar’ está incutido não só o ensino de viva voz, mas também o ensino por escrito. Bata para isso ver na própria passagem que você citou onde Paulo se refere: ‘as tradições que vos foram ensinadas (didasko) seja por palavra, seja por epístola’ (2 Ts 2.15). O próprio Jesus se utilizou de livros para ensinar nas sinagogas (cf. Lc 4.16-22). Desta forma é óbvio que o Mestre tinha também em mente o ensino de forma escrita quando mandou seus discípulos pregarem e ensinar.

Mas insisto, a minha resposta depende da sua e ela permanece de pé.


RESPOSTA:

O problema com vocês protestantes! Só acreditam no que se encontra textualmente na bíblia, pois são fundamentalistas. Não aceitam o fato de que nem tudo foi posto por escrito e que Deus fala também através dos pais da igreja.”

Meu caro católico, a sua primeira pergunta é totalmente ‘fundamentalista’ pois foi você quem começou perguntando: “Onde está escrito na Bíblia que ela é a única regra de fé e prática?”, dando-nos a entender que você não acreditava que a bíblia fosse a única fonte autorizada de fé e prática por que isso não estava escrito nela. Pois saiba que era justamente isso que eu estava esperando ouvir de você para poder te responder.

A bíblia não diz textualmente ou explicitamente que ela seja a única regra de fé e prática. No entanto, o diz implicitamente quando não iguala nenhuma outra fonte a si mesma, ou seja, quando não atribui a nenhuma outra forma de pregação (no caso, a sua ‘tradição oral’) as qualidades e atributos que só ela possui. Sozinha, a bíblia se mantém isolada em importância e adjetivos pelo testemunho que dá de se mesma, e isso se torna desnecessário que ela afirme textualmente ser a única fonte da fé cristã. E se você se recusar a aceitar a bíblia como fonte singular pelo fato disso não se encontrar textualmente escrito, é você quem estará sendo o ‘fundamentalista’ da história. Portanto, viva de acordo com o que você crê. Era esta a resposta que eu pretendia lhe dar.


Uma outra internauta entra no debate:


Caro Aldení, gostaria de afirmar alguns pontos e questionar outros. Acho que a sua comparação de atributos entre as Escrituras e a Tradição foi desonesta.

Apenas uma única vez a Escritura é declarada ‘útil’ (2 Tm 3.16s). Mas perceba que ‘útil’ ou ‘proveitosa’ é uma coisa, e ‘necessária’ é outra coisa bem diferente. Em nenhum lugar na própria bíblia se impõe a sua leitura.

Mas quanto ao que foi anunciado de viva voz, é incentivado que se retenha: “E louvo-vos irmãos, porque em tudo vos lembrais de mim, e retendes os preceitos como vo-lo entreguei” (1 Cor 11.2); que se mantenha firme (2 Ts 2.15);e sobretudo, que seja transmitida: “E o que de mim, entre muitas testemunhas ouvistes, confia-o a homens fiéis que sejam idôneos para também ensinarem a outros” (2 Tm 2.2).

Não é evidente que há duas fontes de revelação nas Escrituras? Como fechar os olhos a todos os outros textos que falam e qualificam a tradição oral?

Se você acha que tem suas bases para crer que somente a bíblia é fonte fé, tudo bem, creia. Mas nós católicos também temos as nossas bases para crer que, ao lado da bíblia, se encontra a tradição oral, preservada até hoje, através de uma sucessão ininterrupta na Santa Igreja Católica Apostólica Romana.


Olá, Amanda! Seja bem vinda ao debate! Permita-me começar te respondendo que você não está sendo sensata com relação à Escritura. Se ela é declarada textualmente ‘útil’ ou ‘proveitosa’ apenas uma única vez e se, para você, isso a rebaixa ou a iguala com a sua ‘tradição’, então me mostre na bíblia uma única vez em que a sua ‘tradição’ é descrita textualmente como ‘útil’. Não encontramos em nenhum lugar na bíblia uma só vez em que é a sua suposta ‘tradição oral’ seja textualmente descrita como ‘útil’ ou ‘proveitosa’. Mas com relação às Escrituras, como você mesmo citou, é dita ser. Isso, por si só, faz dela superior às transmissões orais.

Veja se o que Pedro diz das Escrituras não significa ser ‘útil’ para você: ‘E temos, mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem fazeis, em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia esclareça, e a estrela da alva apareça em vossos corações’ (2 Pd 1.19). Diga-me: para quem está em um lugar escuro sem poder ver nada, sendo arriscado a tropeçar e ferir-se, uma luz para alumiar tal lugar não seria útil? Eu diria que seria mais que útil, seria necessária. Tal é, na concepção de Pedro no caso das Escrituras.

Observe também o que disse o Senhor Jesus aos saduceus: ‘Jesus, porém, respondendo, disse-lhes: Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus’ (Mt 22.29). Se para Jesus a ignorância das Escrituras constitui um erro, isso não implica dizer que ela seja ‘necessária’ aos que não querem errar? Jesus também disse em João 17.17: ‘Santifica-os na verdade: a tua palavra é a verdade’. Você não julga que ‘a verdade’ para o crente seja algo necessário? Se a sua resposta for sim, então julgue as Escrituras como algo necessário, pois para Jesus elas constituem a verdade. Eu poderia citar inúmeros outros textos que tratam da necessidade das Escrituras, mas num debate destes é impossível. Basta que você entenda que, se nem tudo que é útil é necessário, entretanto, tudo o que é necessário é útil. A Sagrada Escritura é tanto útil como necessária.

Quanto a sua pergunta: ‘Não é evidente que há duas fontes de revelação nas Escrituras?’ Eu te respondo o seguinte:

1° Os textos das epístolas paulinas que você citou sobre a transmissão oral do apóstolo não rivaliza nem se diferencia das Escrituras, pois tais ensinamentos e tradições orais que Paulo manda que se guarde e se tenha firmeza, são as próprias Escrituras cristãs que dispomos hoje. Parece que vocês católicos nunca entendem isso.

Deixe-me te explicar. As epístolas de Paulo são os primeiros escritos do Novo Testamento. Foram escritas entre os anos 49 d.C. até o ano de sua morte em 65 d.C. Até esta época nenhum evangelho havia sido escrito ainda. Provavelmente, o Evangelho de Marcos, que é comumente aceito como o primeiro de todos, foi produzido após a morte de Paulo, nesta mesma data. Ora, os fatos sobre a vida, morte e ressurreição de Jesus eram transmitidos de forma verbal pelos discípulos e era à isso que se pedia firmeza, retenção e transmissão. Para provar que era nisto que consistia a pregação verbal e inicial de Paulo, veja o que ele mesmo diz:
“Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e que foi visto por Cefas, e depois pelos doze. Depois disto foi visto, uma vez, por mais de quinhentos irmãos, dos quais vive ainda a maior parte, mas alguns já dormem também. Depois foi visto por Tiago, depois por todos os apóstolos. E por derradeiro de todos me apareceu também a mim, como um abortivo. Então, ou seja eu ou sejam eles (os demais apóstolos), assim pregamos e assim haveis crido” (1 Cor 15.3-8,11).

Note a frase ‘primeiramente vos entreguei o que também recebi’, indicando que era isso que Paulo transmitia primeiramente às igrejas. E não só Paulo, como todos os outros apóstolos, como ele mesmo diz: ‘Então, ou seja eu ou sejam eles, assim pregamos e assim haveis crido”.

2° Como você pode ver, a pregação oral de Paulo não se identifica com a suposta ‘Sagrada Tradição’ que a igreja católica afirma ter. Paulo se referia ao que posteriormente foi posto por escrito. A sua igreja se refere à coisas ensinadas anos e anos depois de Paulo, quer seja por homens falíveis, quer seja pelos concílios dela, que não se identificam com os evangelhos. De forma que, crê que haja ‘duas fontes’ de revelação no sentido que você citou, não é correto.

3° Não ‘fechamos os olhos’ ao que foi inicialmente pregado de viva voz, mas enxergamos aquilo que muitos se recusam a ver: aquilo que os apóstolos anunciaram foi posto por escrito, conforme demonstrei. É óbvio que alguns fatos sobre a vida de Jesus ficaram de fora, conforme atesta a própria bíblia (Jo 20.30s), entretanto, aquilo que foi escrito é suficiente para que creiamos e vivamos em seu nome.

Resposta:

Caro pastor, é louvável o seu esforço em sustentar suas posições protestantes. Mas são justamente em suas posições que eu encontro apoio para as minhas. Analise comigo:

Eu concordo que a pregação verbal foi posta por escrito, pois as Escrituras dependeram desta tradição verbal, o que, de certo modo, a torna superior. Mas afirmar que todo o conteúdo desta transmissão oral se encontra totalmente escrita na bíblia é uma inverdade. Por exemplo: É verdade que a pregação de Paulo consistia no que você demonstrou (mas não somente nisso). Mas se, como você disse, ela foi posta por escrito, então me responda: Em que lugar na bíblia está narrado a aparição de Jesus a mais de quinhentos irmãos? Onde se encontra na bíblia descrita a aparição de Jesus a Tiago exclusivamente? Se a pregação de Paulo se identifica com os Evangelhos, por que não encontramos estes fatos narrados neles?

Isto demonstra que a Tradição Oral, além de ser mais antiga, é ainda mais completa que a Tradição Escrita, pois se refere à coisas ausentes nesta. Em suma, tudo o que você falou sobre a transcrição da pregação oral é uma meia verdade. Nós católicos afirmamos que parte da tradição foi posta por escrito e se encontra na bíblia, e outras coisas importantes permaneceram sendo narradas de forma oral e se encontram verdadeiramente na única Igreja que pode se reportar aquela época, que é a Igreja Católica Apostólica Romana. Desculpe se estou sendo repetitiva ou intransigente, mas é que a verdade sempre se impõe.



Amanda, você não tem que se desculpar. Pelo contrário, sua forma respeitosa de debater é louvável. Isso mantém a nossa conversa num nível excelente.

Quanto ao que você argumentou, eu gostaria de te dizer o seguinte: É verdade que alguns fatos ficaram de fora da bíblia como eu afirmei antes. Mas se a sua ‘Tradição’ é mais completa que a bíblia então me mostre nela, na sua ‘Tradição Oral’ que sobreviveu até hoje na Igreja Católica, a aparição de Jesus a mais de quinhentas pessoas. Mostre-me que, o relato da aparição de Jesus exclusiva a Tiago chegou a nós até hoje, quer seja pelos pais da igreja, pelos concílios ou pelos papas e eu acreditarei que esta ‘Tradição’ é autêntica e completa.

Resposta:

Aldení, não faça promessas que você não possa cumprir. Eu não conheço muito bem os escritos dos pais da igreja, mas vou citar um trecho de um livro que eu tenho sobre esta questão: “Fatos como a aparição do Senhor ressuscitado de forma exclusiva a Tiago, por exemplo, não se encontra narrado em nenhum lugar, quer nos Evangelhos, Atos ou epístolas. Mas a Tradição viva no seio da Igreja a preservou, e dela , São Jerônimo nos transmitiu com riquezas de detalhes no seu livro De Viriis Ilustribus, II.”.

Eu gostaria de ter em mãos este livro de São Jerônimo para transcrever este fato narrado pelo autor. Mas este livro não tem em versão portuguesa ainda, pelo menos até onde eu sei. Contudo, é um fato registrado: São Jerônimo nos transmitiu a aparição de Jesus à Tiago em detalhes, que ele aprendeu da Sagrada Tradição conservada no seio da Igreja Católica. Tradição esta, como você pode ver e agora crê, completa e autêntica.


Amandinha, eu fiz esta promessa porque tinha certeza de que estes relatos não sobreviveram em nenhuma ‘tradição oral’. E de fato não sobreviveu. Eu não sei quem é este autor que você citou, mas posso te garantir uma coisa: Jerônimo não retirou o suposto relato da aparição a Tiago da ‘Tradição Oral’ como você acreditou. Eu tenho o De Virris Ilustribus e vou transcrever pra você esta parte:

“O evangelho que também é chamado de evangelho segundo os Hebreus, que recentemente traduzi para o grego e o latim, e que Orígenis frequentemente faz uso, assim diz após os relatos da ressurreição do Salvador: ‘Mas o Senhor, após ter dado os lençóis ao servo dos sacerdotes, apareceu a Tiago (pois este havia jurado que não comeria até a hora em que visse o Senhor ressuscitado dentre os mortos, desde que bebera o cálice do Senhor), fez trazer uma mesa com pão sobre ela que Ele abençoou e deu a Tiago dizendo-lhe: Come teu pão agora, irmão, visto que o Filho do Homem ressuscitou dentre os mortos.’” (Virris Ilustribus, cap 2).

Como você pôde observar Jerônimo não retirou o seu relato da ‘tradição oral’ mas sim do evangelho apócrifo segundo os Hebreus. A menos que você considere que a fonte de sua ‘tradição’ sejam livros que nem mesmo a sua igreja reconheceu a canonicidade, deve considerar que em nenhum lugar estes relatos sobreviveram de forma confiável.
E se estes relatos que você me pede para mostrar na bíblia, não se encontram também na sua suposta ‘Sagrada Tradição’, então chegamos as seguintes conclusões:

1.A sua ‘tradição’ não se identifica com o que foi transmitido verbalmente no período apostólico, pois do contrário, tal registro teria sobrevivido.

2.Sua ‘tradição’ não é de modo algum anterior a bíblia e mais completa que esta pois não é autêntica.

E não venha quere me convencer de que estes relatos apresentados no apócrifo dos Hebreus são verídicos, pois você não tem base nenhuma para provar. Você concordaria que o Espírito Santo transportou à Jesus por um fio de cabelo até o monte Tabor por ocasião da tentação? Ou que o homem de mão mirrada que aparece nos Evangelhos canônicos (cf. Mt 12.9-11) exercia a profissão de pedreiro? Como alguém aleijado poderia seguir uma profissão onde é necessário usar as duas mãos? Você afirmaria que o véu do templo não se rasgou de alto a baixo, mas simplesmente caiu por ocasião do terremoto? Você sustentaria que os discursos de Jesus são totalmente de cunho gnósticos? Tudo isto são coisas mencionadas no evangelho dos Hebreus. Baseado em que pressupostos se pode afirmar que estes relatos são falsos enquanto os que se refere a Tiago são verídicos?

Quanto as Sagradas Escrituras, se nem tudo foi escrito, pelo menos temos a certeza de que, o que está escrito proveio dos apóstolos, sendo ensinamentos autênticos deles, os únicos confiáveis que nos chegaram até hoje. Podemos crer que Jesus apareceu a mais de quinhentos irmãos porque a própria bíblia diz isso, ainda que não dê detalhes. O mesmo se diga da aparição do Senhor a Tiago, e não dependemos de tradição de homens para crer nisso.

A maior prova de que a transmissão oral não era confiável para preservar a sã doutrina apostólica é que ela foi posta por escrito. A princípio não havia porquê suspeitar da autenticidade do que era pregado de viva voz, pois os discípulos ainda estavam vivos e poderiam corrigir qualquer distorção. Mas com a perseguição de Nero que ocasionou a morte de Paulo e Pedro, e as demais perseguições que estava ocasionando o desaparecimento dos apóstolos, os primeiros cristãos sentiram-se obrigados a colher deles seus ensinos e registra-los por escrito, movidos pelo receio de que os ensinos verbais dos apóstolos sofressem interpolações. Ademais se enquanto estavam vivos eles já se queixavam de distorções de seus ensinos, imagine quando morressem.

Desta forma, a transmissão escrita torna-se, em tudo, superior e mais confiável do que qualquer tradição oral.

Resposta:

Antes de mais nada gostaria que me indicasse o site ou a editora em que você consegui o De Virris Ilustribus, pois gostaria muito de tê-lo. Se possível, mande-me por e-mail. Quanto aos apócrifos, acreditamos que, ainda que não sejam canônicos, podem trazer dados históricos confiáveis, que em nada contradizem à bíblia.

Com relação à distinção entre Bíblia e Tradição isto se torna evidente desde o início da Igreja. Veja por exemplo Irineu de Lião que, para combater as heresias dos gnósticos, fez uso, tanto das Escrituras quanto da Tradição Oral. Como poderia ele que viveu tão próximo dos apóstolos estar tão errado quanto a isso, e Martinho Lutero, que viveu séculos e séculos depois destes pais primitivos, estar tão certo com a sua tese ‘Sola Scriptura’? Desculpe-me, mas isso é muito difícil de engolir.

Você disse anteriormente que não conhecia muito bem os escritos dos pais da igreja. Então por que insiste em debater sobre eles? Citar os pais da igreja torna o debate longo e cansativo. Mas se você persiste em recorrer a eles, então vamos lá.

1° Para Irineu, a pregação oral foi posta por escrito e se encontrava nas Escrituras que se tornaram ‘fundamento e coluna da nossa fé’:

“Não foi, portanto, por ninguém mais que tivemos conhecimento da Economia da nossa salvação, mas somente por aqueles pelos quais nos chegou o Evangelho, que eles primeiro pregaram e, depois, pela vontade de Deus, transmitiram nas Escrituras, para que fosse para nós fundamento e coluna da nossa fé”. (Adv. Haeresis III. 1,1).

2° Irineu fez uso de uma tradição oral porque os gnósticos não aceitavam as Escrituras como prova. Eles usavam contra Irineu os mesmos argumentos que o Catolicismo romano usa conosco para sustentar a sua suposta ‘Tradição’. Veja:

“Quando são vencidos pelos argumentos das Escrituras, retorcem a acusação contra as próprias Escrituras, dizendo que é texto corrompido, que não tem autoridade, que se serve de expressões equívocas e que não podem encontrar a verdade nele os que desconhecem a Tradição. Com efeito, dizem eles, a verdade não foi transmitida por escrito, mas por viva voz, o que levou Paulo a dizer: ‘É a sabedoria que pregamos entre os perfeitos, não porém, a sabedoria deste século.’ E cada um deles diz que esta sabedoria é aquela que ele descobriu, ou melhor, inventou, e assim se torna normal que a verdade se encontre ora em Valentim, ora em Marcião, ora em Cerinto e depois em Basílides ou nalgum outro contendente, sem nunca ter podido afirmar nada acerca da salvação. Cada um dele está tão pervertido que, falsificando a regra da verdade, não cora de vergonha ao pregar a si mesmo”. (Adv. Haeresis III. 2,1).

3° Irineu deixou claro que seria necessário recorrer às tradições orais se não tivéssemos a Bíblia. Se assim fosse, essa tradição se encontraria na igreja vinda dos apóstolos e não na tradição dos gnósticos:

“Ora, se surgisse alguma controvérsia sobre questões de mínima importância, não se deveria recorrer a Igrejas mais antigas, onde viveram os apóstolos, para saber delas, sobre a questão em causa, o que é líquido e certo? E se os apóstolos não tivessem deixado as Escrituras, não se deveria seguir a ordem da Tradição que transmitiram àqueles aos quais confiavam as igrejas?”. (Adv. Haeresis III. 4,1).

4° Para Irineu as Escrituras eram suficientemente claras para refutar as heresias, em outras palavras, só elas bastavam. É o que podemos deduzir destas passagens seguintes:

“Mas para que não se pense que nos queiramos esquivar das provas tiradas das Escrituras do Senhor – elas que proclamam esta doutrina de maneira mais aberta e clara, ao menos por quem as estuda na sinceridade – exporemos no livro seguinte as Escrituras divinas e as provas que delas se deduzem e as exporemos diante dos olhos de todos os que amam a verdade”. (Adv. Haeresis II. 35,4).

“Ora, todas as Escrituras, profecias e evangelhos, que todos têm a possibilidade de ouvir, ainda que nem todos acreditem, proclamam claramente e sem ambigüidade, excluindo qualquer outro, que um só e único Deus criou todas as coisas por meio de seu Verbo, as visíveis e as invisíveis, as celestes e as terrestres, as que vivem na água e as que se arrastam debaixo da terra, como demonstramos com as próprias palavras da Escritura.” (Adv. Haeresis II. 27,2).

“É necessário, portanto, evitar as doutrinas deles e prestar muita atenção para não sermos prejudicados e, sobretudo, refugiar-nos na Igreja, para ser educados no seu seio e nutridos pelas Escrituras do Senhor. A Igreja é como o paraíso plantado neste mundo. Portanto, comereis do fruto de todas as árvores do paraíso, diz o Espírito de Deus, o que significa: alimentai-vos de todas as Escrituras divinas, mas não o façais com intelecto orgulhoso e não tenhais nenhum contato com a dissensão dos hereges.” (Adv. Haeresis V. 20,2).

Isso mostra que, tanto Irineu de Lião quanto Martinho Lutero comungavam da mesma opinião em relação às Escrituras. Lutero não desprezava os escritos Patrísticos e as primeiras definições conciliares, desde que não entrassem em frontal contradição com a Bíblia. Mas como regra infalível e suficiente de fé, ele bradava com razão: Sola Scriptura.

Quanto à forma que a igreja católica trata os livros apócrifos do Novo Testamente, me parece bem conveniente para ela, já quem sem eles, muito de seus dogmas não se sustentariam. Veja o caso da suposta ‘Assunção de Maria’ por exemplo.

Nos quatro primeiros séculos, não havia nenhuma menção de que Maria teria sido levada ao céu de corpo e alma. É um escritor do quinto século chamado Epifânio de Salamina (+403) quem atesta isso: “Se a santa virgem morreu de morte natural e foi sepultada, verdadeiramente digna de honra é a sua dormição, casto o seu fim, sua coroa é a virgindade. Se ao contrário, tivesse sido morta(...) então a sua glória estaria entre os mártires e bem-aventurado seria o seu corpo, do qual se ergueu a luz do mundo. Mas poderia também ter permanecido com vida: Deus pode todas as coisas. De qualquer maneira, jamais alguém conheceu o seu fim” (Panarion 78.11).

Ora, se Epifânio diz que ‘ninguém conheceu o seu fim’, é porque não havia tradição oral nenhuma que afirmasse a suposta assunção dela. Mas a igreja católica tomou como base dois livros apócrifos datados provavelmente do final do quarto ou início do quinto século, chamados ‘Dormição da Bem-aventurada Virgem Maria’. Isto mostra quão conveniente são os apócrifos para a ‘tradição’ católica.


Após algum tempo não houve mais resposta.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

RESPOSTA AOS PRINCIPAIS ARGUMENTOS CONTRA O ARREBATAMENTO





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1ª Pergunta: Ensino Recente?

Recentemente li um livro do Pr. Jim Bakker onde diz que a doutrina do arrebatamento pré tribulacional só passou a ser ensinada a partir de 1830. Gostaria de saber se isso é verdade” (Paulo S. Moura. Valinhos, SP).





1. Definições

Antes de tratarmos objetivamente da pergunta em pauta, precisamos fazer algumas definições básicas sobre as doutrinas que envolvem esta questão:

Arrebatamento da Igreja: Por este termo designamos o rapto brusco e sobrenatural dos crentes em Cristo Jesus deste mundo para estarem eternamente com o Senhor, conforme ensinado em 1 Coríntios 15 e 1 Tessalonicenses 4.

Pré-tribulacionismo: Doutrina que afirma que o arrebatamento da Igreja se dará antes da Grande Tribulação.

Pós-tribulacionismo: Doutrina que põe o arrebatamento da Igreja depois da Grande Tribulação.

Meso-Tribulacionismo: Afirma que a Igreja permanecerá na terra até o final da primeira metade da Grande Tribulação.


2. O Argumento de Jim Bakker

A idéia apresentada por Jim Bakker no seu livro ‘A Doutrina da Prosperidade e o Apocalipse’, é um dos principais argumentos dos pós-tribulacionistas chamado de ‘argumento histórico’. Jim diz ter descoberto, após ter estudado ‘a fundo a matéria’ que as idéias associadas ao arrebatamento pré-tribulacionista não se originaram na bíblia, mas, numa visão extra–bíblica, de uma cristã do século XIX chamada Margaret MacDonald. Ela teria tido uma visão e enviado cópias desta por escrito a um eloqüente pregador da época chamado Edward Irving. Irving teria passado estes ensinos a John Darby, organizador dos ‘Irmãos de Plymouth’. Este teria influenciado C.H. Mackintosh e C.I. Scofield.

Citando David MacPherson, Jim aceita que por cerca de 1800 anos, a igreja havia crido apenas na vinda de Cristo pós tribulacionista, e diz: ‘Não há nenhum vislumbre de evidência de que, antes de 1830, a igreja havia crido em uma dupla segunda vinda de Cristo ou um arrebatamento antes da Tribulação’ (Ob. Cit. Pp. 177). Analisemos, pois estas posições.


3. A Suposta Influência de Margaret MacDonald

Margaret MacDonald nasceu por volta de 1815 na Escócia. Em 1830, com a idade de quinze anos, relatou ter tido uma visão sobre o fim dos tempos. Pouco tempo depois, escreveu cópias manuscritas do conteúdo de sua revelação para alguns líderes cristãos da época. Uma publicação britânica influente chamada ‘The Morning Watch’ rapidamente publicou algumas de suas idéias. Mas a visão dela foi publicada na íntegra pela primeira vez por Robert Norton em 1840, no seu Livro intitulado: ‘Memórias de James e George Macdonald, de Port Gasglow’. Que influência teria tido esta visão na doutrina do arrebatamento pré-tribulacional? Segundo os oponentes desta doutrina, teria sido por influência desta visão que os cristãos passaram a crer nesta doutrina. Contudo, esta suposta influência é contestada pelos seguintes motivos:

1° Um exame acurado sobre a visão de Margaret indica que, na verdade, trata-se de uma visão pós-tribulacionista. Devido à forma em que foi escrita, deu-se margem à interpretações errôneas.

2° A alegação de que a visão de Margaret teria influenciado Darby e a Irmandade de Plymouth nunca foi comprovada. Pelo contrário, Darby afirma categoricamente que obteve esta doutrina a partir dos claros ensinamentos do Novo Testamento.

3° Jim, que diz ter estudado ‘a fundo’ a questão, aceitou com muita facilidade as afirmações de MacPherson. Um exame realmente aprofundado teria lhe revelado que a doutrina de um arrebatamento pré-triblacional já havia sido ensinada séculos antes de visão de Margaret. Assim: Peter Jurieu em 1687, no seu livro: ‘The Approach Deliverance of the Church’; Philip Doddriges em 1738, no seu ‘Comentário do Novo Testamento; John Gill em 1748, no ‘Comentário do Novo Testamento’, em 1 Ts 4.15-17; James Macknight em 1763, no seu ‘Comentário das Epístolas Apostólicas’; Thomas Scott em 1792 no seu ‘Comentário da Bíblia Sagrada’.
Como vemos, a afirmação de que o arrebatamento pré-tribulacionista só foi ensinado por influência de Srª. MacDonald é infundado e não pode ser levado a sério. Quanto ao questionamento da ‘dupla vinda’ abordaremos mais abaixo.

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2ª Pergunta: Os pais silenciaram?

“Por que não se encontra nada sobre um arrebatamento pré-tribulacional nos ensinos dos pais da igreja primitiva?” (Julia M. N. Barueri, SP).

A escatologia não foi um assunto amplamente abordado pelos pais da igreja primitiva, como se deu com outros temas de fé. Não se encontra quase nada a respeito da vinda de Cristo nos escritos de Clemente de Roma, Policarpo, Justino e Irineu, por exemplo, a não ser a crença geral de uma vinda eminente. Os tópicos mais debatidos e esclarecidos foram doutrinas questionadas ou ensinadas pelos herejes e, até onde se sabe, nenhuma controvérsia envolvendo a segunda vinda de Cristo surgiu na igreja primitiva. Devido a essa insuficiência de dados, é impossível afirmar que eles não acreditavam num arrebatamento pré-tribulacional. Muito pelo contrário, apesar de não haver uma abordagem objetiva, podemos encontrar vestígios de que a fé primitiva era pré-tribulacionista.

Assim é o caso do Pastor de Hermas, onde diz: ‘Dize-lhes que a fera é a prefiguração da grande tribulação que está para chegar. Se vos preparardes e de todo coração fizerdes penitência diante do Senhor, podereis escapar da tribulação’. (Hermas I.IV, 23).

Também, o escrito chamado ‘O Ensino dos Doze Apóstolo’ escrito em torno do ano 120 d. C., assim diz: ‘Vigiai pelo próprio bem de vossas vidas. E que as vossas lâmpadas não estejam descuidadas, nem os vossos lombos descobertos; mas estejais prontos, pois não sabeis a hora na qual o Senhor há de vir... E então, aparecerão os sinais da verdade: primeiro, o sinal de uma notícia nos céus, então, o sinal do som da trombeta; e o terceiro, a ressurreição dos mortos; mas não de todos, como está escrito: O Senhor virá e todos os seus santos com ele; então o mundo verá a vinda do Senhor sobre as nuvens do céu”. (Cap. XVI).

Além disso, um outro texto recentemente descoberto atribuído à Efrém, o Sírio, também apresenta uma noção escatológica pré-tribulacionista:
‘Nós devemos entender minuciosamente, portanto, meus irmãos, o que é iminente e próximo. (...) Para que todos os santos e eleitos do Senhor sejam unidos antes da tribulação que está para vir para que sejam tomados para o Senhor a fim de que não possam ver em momento algum a confusão que sobrevirá ao mundo por causa dos nossos pecados. Não nos tornemos temerosos destas novas nem de sua aparição... Estejamos preparados para o encontro com o Senhor Jesus Cristo, para que ele possa nos livrar da confusão do mundo’ (Sobre os Últimos Tempos – Biblioteca Pós-Nicena).

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3ª Pergunta: ‘duas’ vindas?

Como é possível sustentar uma ‘dupla segunda vinda’ de Cristo? A Bíblia não fala sempre nela como um evento único?” (A. T. A.).

A segunda vinda de Cristo é, sem dúvida alguma, um evento único. Entretanto, esse evento único é composto de aspectos diferentes dada à relação que terá com três grupos distintos: a Igreja, Israel e as nações.
a) Para a Igreja, nos é dito que ele virá nas nuvens, onde nos encontraremos com ele nos ares (1 Ts 4.16,17).

b) Para Israel, para que sejam cumpridas as profecias que ainda não ocorreram: reajuntamento nacional, conversão e estabelecimento da aliança davídica (II Sm 7.16).

c) Para as nações gentias, trazendo destruição ao atual sistema político mundial (Dn 2.34-35) e o juízo (Mt 25.31-46).

Desta forma, a primeira etapa diz respeito à Igreja que se encontrará com o Senhor nos ares. Na segunda etapa ele descerá para Israel e as nações tendo, contudo, já a sua Igreja consigo (Cl 3.4; Jd 14). Vemos, portanto, que não se ensina ‘duas vindas’ mas tão somente, aspectos diferentes citados nos textos bíblicos de um único e mesmo evento.

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4ª Pergunta: Um ‘encontro’ rápido?

‘Não se questiona o fato do ‘encontro nos ares’ entre Cristo e a sua Igreja. O problema é que se afirma um grande intervalo sobre o arrebatamento e sua descida à terra. Era comum que o povo se encontrasse com o monarca ainda no caminho e o escoltasse à cidade, nos tempos bíblicos. Mas tal ‘encontro’ não era demorado, e sim, uma rápida expressão de boas vindas. Como provar que o ‘encontro nos ares’ vai durar ‘sete anos’? (A.T. A).


O termo grego usado por Paulo em 1 Tessalonicenses 4.17 para ‘encontro’ é ‘απαντησις’. De fato, esta palavra possui um sentido técnico no mundo helenístico, designando a visita de uma figura importante à cidade, onde o ilustre visitante seria encontrado pelos cidadãos ou por uma delegação deles saídos da cidade com a finalidade de escoltá-lo cerimonialmente. Não há dúvidas de que este será um dos objetivos do ‘encontro’ da Igreja com o Senhor nos ares. Mas não é o único. O termo ‘απαντησις’, conforme usado no Novo Testamento, não implica necessariamente um ato rápido, nem impede que alguns acontecimentos razoavelmente longos se desenrolem aí. Em um ‘απαντησις’ Jesus curou dez leprosos (Lc 17.12-19) e um rei sai a um ‘απαντησις’ para guerrear (Lc 14.31). Também Paulo ministra uma libertação e sofre perseguição num ‘απαντησις’ (At 16.16-24).

Apesar de entendermos que tecnicamente o ‘encontro’ como ‘boas vindas’ esteja aí implicado, vemos que Paulo não se refere à escolta no texto como objetivo, mas diz: ‘e estaremos para sempre com o Senhor’ (1 Ts 4.17), indicando que a finalidade do encontro vai bem mais além do que uma simples escolta de boas vindas, como se pensa.
Com efeito, o estado da Igreja que é descrita descendo com o Senhor implica que algumas coisas tenham acontecido com ela entre o arrebatamento e a sua decida à terra. De fato, a Igreja é dita descendo com Jesus irrepreensível em santidade (1 Ts 3.13) e Justiça (Ap 19.8,14) e, sobretudo gloriosa (Col 3.4). Estas qualidades sublimes da Igreja que vem com Jesus implicam: exame, julgamento e recompensa. Sabemos que haverá um juízo para examinar as obras da Igreja, dando-lhe recompensas (1 Cor 3.11-15) e que este juízo será antes de todos os outros (1 Pd 4.17). Se a Igreja é dita irrepreensível em santidade e justiça e, sobretudo gloriosa, é óbvio que tal juízo já deverá ter acontecido antes de sua descida com Cristo. Também o fato de ‘estarmos para sempre com o Senhor’ indicando uma união sobrenatural, revela que o casamento de Jesus com a sua noiva é o objetivo maior visado por Paulo no encontro.

Baseado nestes pontos, afirmamos que, por ocasião do arrebatamento, três coisas acontecerão com a Igreja nos ares, antes de sua descida: 1) o tribunal de Cristo, 2) a apresentação da Igreja a Cristo e 3) as bodas do Cordeiro. Além disso, devemos mencionar o fato da Igreja não passar pela Grande tribulação que se dará logo após a sua retirada da terra num período de sete anos, com vimos em ‘Fé em Debate’ n° 1.
Tudo isso torna inviável interpretar o arrebatamento como um simples encontro rápido de boas vindas.



5ª Pergunta: Ele não virá em ‘breve’?

“Como vocês evangélicos esperam uma vinda ‘a qualquer momento’ se Jesus deixou bem claro que muita coisa precisa se cumprir até que ele venha? Jesus não retornará até que o Evangelho seja pregado em todo mundo (Mt 24.14), até que aconteça a conversão dos judeus (Rm 11.25-27), o aparecimento do anticristo e da apostasia (2 Ts 2.8-11) e da grande tribulação.” (Ana Maria, Diadema, SP).


Este é o principal argumento das igrejas amilenistas e pos-tribulacionistas. Segundo esta corrente de interpretação, a igreja deve aguardar o cumprimento dessas coisas que prenunciam a vinda de Cristo. De fato, tudo isto há de se cumprir antes da Vinda de Cristo à terra, mas não antes da vinda nas nuvens para a Igreja. Os sinais citados acima devem ser aguardados por Israel e pelas nações. Mas para a Igreja do Senhor, a sua vinda é dita ser sempre eminente (Jo 14.2,3; At 1.11; 1 Cor 15.51,52; Fp 3.20; Col 3.4; 1 Ts 1.10; 1 Tm 6.14; Tg 5.8; 2 Pe 3.3,4). Ora, se os mesmos apóstolos que ouviram a pregação do Senhor sobre estes prenúncios que antecederiam a sua vinda, anunciaram a eminência de seu aparecimento nos ares, isso indica que a interpretação que eles deram a estes fatos não condiz com o que ensinam as igrejas amilenistas. A Igreja é admoestada a não dizer: ‘o meu Senhor tarda em vir’, pois nos é dito que o Senhor virá no dia em que não esperamos e numa hora em que não sabemos (cf. Lc 12.45,46). Mas se a igreja afirmar: Jesus não virá ‘hoje’ porque o Evangelho ainda não foi pregado em todo o mundo e os judeus não se converteram, obviamente este versículo perderá seu sentido.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Línguas Estranhas Cessaram?


Resposta a sete argumentos cessacionistas

Apresento aqui uma refutação a sete argumentos apresentado em um site na internet para afirmar que o dom de línguas não é mais para hoje.

O artigo segue resumidamente abaixo:

“7 Provas: LÍNGUAS CESSARAM no Século I

1) Prova pela HISTÓRIA:
A História registra (indiscutivelmente!) o cessar das línguas, desde os Pais da Igreja [anos 1** a 3**] até que Agnes Ozman, em 1901, "buscou e encontrou as línguas”, fazendo nascer o Pentecostalismo [NOTA2]. Por que Deus iria negar tamanho dom aos seus melhores homens servos da estirpe filadelfiana em 19 séculos (homens do calibre dos Valdenses; dos Anabatistas; dos Pre-Reformadores como John Huss, Wycliff e Tyndale; de Reformadores como Lutero e Calvino; dos irmãos Morávios; dos Puritanos; dos grandes Reavivadores como Wesley; grandes missionários como Carey e Taylor, dos grandes pregadores como Crisóstomo, Spurgeon e Martin Lloyd Jones; etc.) e concedê-lo somente a homens da igreja laodiceiense do século XX.

2) Prova por Fortes IMPLICAÇÕES DA BÍBLIA:
Os grandes derramamentos de sinais e milagres estão relacionados com os grandes períodos de revelação, através dos escritores bíblicos. Os objetivos dos milagres foram:
Assinalar uma nova era de revelações;
Autenticar os mensageiros dessas revelações (1Rs 17:24; Jo 10:24-25; At 2:22; 14:3);
Fazer crer na Bíblia que ainda estava sendo escrita, ainda por ser concluída. Jo 20:31; At 5:12-14. As razões de ser dos dons de sinais (assinalar uma nova era de revelações escritas; autenticar as mensagens e mensageiros; fazer crer na Bíblia que ainda estava sendo escrita) foram concluídas e encerradas no passado, portanto tais dons não têm, hoje, mais nenhuma razão de ser.(Esta prova é irrespondível e incontornável!!!) Sinais miraculosos eram característicos, exclusivos, identificadores, restritos só aos 83 crentes (todos eles ex-judeus e que receberam os dons pessoalmente, dos lábios físicos do próprio Senhor quando em carne): os 11 apóstolos + Matias + Paulo + os 70 discípulos . Se tal não fora, Paulo não teria usado aqueles sinais miraculosos como provas que o diferenciavam como sendo um apóstolo (2Cor 12:11,12). Se houvesse no mundo pelo menos um outro salvo, afora dos 83, que tivesse os dons dos sinais, a alegação de Paulo seria ridícula ao extremo. Seria como se dissesse: "Eu provo que sou apóstolo com o fato de que tenho cabelos pretos", ao que responderiam: "Que tolice, outros têm, isto não prova nada.” Ah, irmão, se Paulo provou ser um apóstolo pelo fato de ter dom de sinais, forçosamente é porque só um apóstolo ou discípulo os tinha! Isto nem pode ser retorquido, sem pode ser simplesmente ignorado! Enfrente o fato, com toda sinceridade e humildade! Heb 2:3-4 indica que o dom de falar línguas humanas não aprendidas, e todos os dons de sinais (um e outros característicos, exclusivos dos 83 [1Co 12:12]), já haviam sido completados e cessados total e definitivamente quando Hebreus foi escrita (todos concordam que Hebreus foi escrita antes do ano 70 DC), com o General Tito e a Diáspora, e aproximando-se a conclusão do Novo Testamento:
O dom de falar idiomas humanos não aprendidos cessaria:
O amor nunca falha; mas havendo profecias, SERÃO ANIQUILADAS; havendo línguas, CESSARÃO; havendo ciência, DESAPARECERÁ; (1 Coríntios 13:8)
Observações secundárias:-- O verbo “serão aniquiladas” katarghyhsontai 2673 5701 {Futuro, Passivo, Indicativo - 3Plural} e o verbo “desaparecerá”{katarghyhsetai 2673 5701 Futuro, Passivo, Indicativo - 3Singular. um bom entendimento, indicando a voz passiva, seria "será feita desaparecer"} indicam que profecias e ciência sofreriam (passivamente) a ação de serem aniquiladas/feitas desaparecer por algo/alguém exterior, e isto subitamente.-- Já o verbo “cessarão” {pausontai 3973 5695 Futuro; Voz Média Direta, Indicativo - 3Plural. um bom entendimento seria "cessarão por si mesmas"} indica que o dom apostólico de falar línguas humanas não aprendidas cessaria gradativamente, e cessaria como se tais línguas cessassem a si próprias, de modo que, quando o algo/alguém exterior viesse cessar os outros dons, o dom de falar línguas humanas não aprendidas já não mais existiria.-- A tradução literal de Zeolla é “The love is never failing. And if [there be] prophecies, they will become useless; if TONGUES, THEY WILL CEASE BY THEMSELVES; if knowledge, it will become useless.”
O dom de falar idiomas humanos não aprendidos cessou antes dos outros dons de sinais (um e outros foram característicos, exclusivos dos 83 [1Co 12:12]). E todos os dons de sinais cessaram antes de Heb 3:3-4 (acima), do General Tito e da Diáspora no ano 70, e da conclusão do Novo Testamento no ano 96. - Veja, acima, os comentários em 1Co 13:8 (o dom de falar idiomas humanos não aprendidos cessaria por si mesmo, gradativamente; isto foi profetizado entre os anos 52 e 56)- Veja, acima, os comentários em Heb 3:3-4 (o dom já havia sido completado e cessado, antes do ano 70).- Note que o dom de falar idiomas humanos não aprendidos é mencionado nos livros escritos mais cedo
(Marcos, cerca do ano 68 mas registrando uma profecia feita no ano 33; Atos, cerca do ano 60, mas referindo-se a eventos a partir do ano 33; 1 Coríntios, cerca do ano 52, no máximo ano 56)
mas o dom de falar idiomas humanos não aprendidos não mais é mencionado nos livros escritos depois, mesmo quando estes livros tratam de dons e seria esperado que mencionassem o dom de idiomas, se ainda existisse!!!
(Efe 4:11 cerca do ano 60; Rom 12:6-8 cerca do ano 56; 1Pe 4:11, cerca do ano 65).
- Assim, tudo indica que o dom de falar idiomas humanos não aprendidos cessou completa e definitivamente, entre cerca dos anos 52 ou 56 (se 1 Coríntios se refere somente à EMULAÇÃO dos dons, como cremos) e 60 (no mais tardar).- Note que os versos 9 e 10 de 1Co 13 voltam a mencionar profecia e ciência (dons já mencionados no verso 8), mas não mais mencionam o dom de falar idiomas humanos não aprendidos (idem). Isto indica que quando profecia e ciência foram finalmente aniquilados, línguas já haviam cessado gradativamente, por si mesmas:
9 Porque, em parte, CONHECEMOS, e em parte PROFETIZAMOS; 10 Mas, quando vier aquilo que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado. (1 Coríntios 13:9-10)


3) Prova por PARALELOS COM COISAS NÃO DO ESPÍRITO SANTO:
A) - Eu mesmo, como criança na década de 50, presenciei Dona Edvirges, uma romanista extremamente mariólatra e que nunca havia sequer ouvido falar de Pentecostalismo, falar línguas em transe numa sessão mediúnica, e depois traduzir como uma mensagem extremamente mariólatra. Hoje percebo, assombrado, como o tipo de língua e de tradução foi indiferenciável do fenômeno dos Pentecostais. Como podemos estar certos de que um fenômeno Pentecostalista, tão igual, é de Deus?- Mórmons, romanistas, e até islamitas, têm fenômenos de línguas indiferenciáveis daqueles dos Pentecostais. Isto está bem documentado. Como podemos estar certos de que um fenômeno Pentecostalista, tão igual, é de Deus?- Há filmes e gravações mostrando que satanistas, feiticeiros tribais e do Vodu, etc., sempre tiveram e têm fenômenos de línguas, indiferenciáveis daqueles dos Pentecostais. Como podemos estar certos de que um fenômeno Pentecostalista, tão igual, é de Deus?

4) Provas pela MEDICINA E PSICOLOGIA
Certos tumores cerebrais e distúrbios neurológicos, eletrochoques, intensas lavagens cerebrais, intensas técnicas de pressão/ sugestão/ hipnose, etc. podem levar a um "estado alterado de consciência" ou a um "comportamento aprendido", e ao mesmíssimo fenômeno de línguas dos Pentecostais.


5) CONFISSÕES DE FINGIMENTO ou Provas de DEMONISMO / FINGIMENTO
Há inúmeras confissões ou provas de grosseiros fingimentos/ demonismo.
Por exemplo:- Um seminarista americano conhecido da família do meu pai na fé, Missionário Charles Smith, testemunhou que na década de 60 ou 70 foi a uma reunião Pentecostal, recitou Salmo 23 em Hebraico, e a intérprete foi logo traduzindo como uma mensagem contra mini-saias!- Outro seminarista americano também conhecido da família Charles Smith, testemunhou que na década de 60 ou 70 foi a uma reunião Pentecostal com um seminarista amigo, índio, e este ficou extremamente indignado porque disse que um dos falavam em línguas estava falando palavras pornográficas e blasfemas contra Jesus Cristo, no dialeto da sua tribo.

6) Prova pela LINGÜÍSTICA:
Todos os lingüistas concordam que a esmagadora maioria dos fenômenos gravados e analisados NÃO apresenta um número suficiente de características de uma língua para serem aceitos como tais. (Ver, por exemplo, William J. Samarim, "Tongues of Men and Angels: The Religious Language of Pentecostalism", 1972, caps 4-6).
Toda língua, por mais pobre e rudimentar que seja, tem pelo menos algumas centenas de fonemas, e um fonema pode se seguir a outro de dezenas de milhares ou centenas de milhares de maneiras diferentes. Mas cada imitação do dom de línguas que tem sido gravada e analisada, hoje, raramente tem mais de uns 10 fonemas em umas 20 combinações!!! Por exemplo, os fonemas da "oração" abaixo (copiei-a de bom artigo do meu amigo, Pr. Sebastião Tenório) podem se repetir por 1 hora, sem quase nenhuma variação sequer de combinações:
"lachér radamicaia,lachár micaia,lachár midicaia,natúr chamamadicher,nadár micher,racár damaracher,racár ladamaracher,radacár micher,rita canta chamanducaia,rita canta chamamalari."
Pura algaravia! Mera "linguagem" confusa e ininteligível (como de retardados mentais, surdos mudos, ou crianças, todos que nunca aprenderam a falar). Puro ruído, puro palrear sem sentido.



7) Prova por ACAREAÇÃO:
Nunca gravações escolhidas aleatoriamente foram levadas a dois intérpretes (escolhidos aleatoriamente e mantidos em isolamento) e resultaram em traduções mesmo remotamente semelhantes!!!
Os dois casos supra citados (do seminarista recitando Salmo 23 em Hebraico, e do demônio possuindo o médium Pentecostal e blasfemando de Cristo em dialeto de um seminarista índio presente) poderiam ser traduzidos igualmente por tradutores independentes... Mas que vergonha trariam, um caso foi de falsificação, o outro de demônio falando o antibíblico!
Hélio de Menezes Silva, Jul.2001

O Endereço do site é: http://solascriptura-tt.org/Seitas/Pentecostalismo/7ProvasLinguasCessaramSeculoI-Helio.htm.




REFUTAÇÃO





1) Prova pela HISTÓRIA:


O polemista autor do artigo não foi honesto em sua pesquisa para afirmar que as línguas cessaram no século I. O seu principal erro foi procurar (se é que o fez) referências ao fenômeno das ‘línguas’ (doravante ‘glossolalia) em si. É sabido, contudo, que os primeiros cristãos não abordavam determinado carisma em si, a menos que tivessem que corrigir algum abuso. Aliás, é inegável que este também foi o caso de Paulo em 1 Coríntios. Era tecnicamente preferido pelos cristãos primitivos o termo “carisma”, que designava as manifestações sobrenaturais do Espírito Santo. Assim, uma inquirição correta não seria se os pais da igreja acreditavam na realidade da “glossolalia” e sim dos “carismas” como um todo.

Ora, feita esta observação, é impossível duvidar da crença da igreja dos quatro primeiro séculos na realidade dos carismas (incluso a glossolalia).
Nos pais apostólicos, os textos relativos aos carismas não são muito numerosos. Mas apesar disso, o pouco que foi mencionado nos autoriza a deduzir a crença deles nestes fenômenos.
Inácio escreve aos cristãos de Esmirna que “eles não precisam de nenhum carisma” (Aos Esmir. Introdução).
No Pastor de Hermas (Mand. 11.7-9) e na Didaqué (11,7,12) são observados instruções com relação aos portadores do dom da profecia que freqüentavam as igrejas da época.
Entre os apologistas, Justino, assim como Inácio, sustenta que os cristãos não têm falta de nenhum carisma e observa que “ainda hoje é possível ver entre nós mulheres e homens que possuem o carisma do Espírito Santo” (Dial. 88.1).

Irineu, cuja referência o autor menospreza e distorce, desenvolve o tema dos carismas sobretudo no contexto de sua polêmica contra os gnósticos e os montanistas. Ele de fato contestava o uso destes carismas nos gnósticos não por desacreditar na realidade dos dons, mas sim por não se realizar conforme os métodos aprovados pela ortodoxia (Contra as Heresias I.13,4; II. 31.2), como também porque os gnósticos achavam que seus poderes não vinham de Deus, mas de suas artes mágicas. Da mesma maneira, Irineu refutava os montanistas por se acharem os únicos depositários exclusivos dos carismas, sobretudo da profecia, exercendo-o fora da igreja (Contra as Heresias III.11,9).
Também Apolônio – um contemporâneo de Montano, citado por Eusébio (Hist. Ecle. V. 18,1-14) – procurava mostrar a falsidade dos carismas nos montanistas, não por colocar em dúvida a existência desses carismas, mas pela razão de eles o exercerem em formas não tradicionais, aceitando dinheiro (Hist. Ecle V. 16,7).
Concluindo, os Pais do século II dão prova de acreditar na realidade dos carismas presentes na Igreja de seu tempo (cf. também Tertuliano Apologia 23; Ad Escapula I, 2-4; e Exortação à Castidade 4), mas em face da urgência da polêmica anti-herética, procuravam estabelecer os limites e as modalidades em virtude das quais fosse possível distinguir os carismas ortodoxos dos pretendidos pelos heréticos.

Orígenes Admitia que os sinais do Espírito, numerosos na época de Jesus e de sua ascensão, com o passar do tempo tinham ficado mais raros (Contra Celso VII,8). Contudo não negava a persistência dos carismas em sua época entre os cristãos (Contra Celso II,8). Tudo isso mostra como foi superficial e tendenciosa a primeira prova sustentada pelo autor do artigo "7 provas: Línguas estranhas cessaram no Século I".


OS REFORMADORES E OS DONS ESPIRITUAIS


"É um fato que nem Lutero (+1546) nem Calvino (1564) deixou alguma reflexão sobre a glossolalia. Para Lutero, "falar em línguas" tinha a ver com a Missa católica romana oferecida em latim: Lutero afirmava que era necessária a língua vernácula. Calvino via nas línguas de pentecostes um símbolo da inclusão da igreja não-judia.

Isso porém não implica dizer que eles não acreditavam na sua atualidade em seus dias.
Lutero comentando Marcos 16 diz: “Onde existir um cristão, ainda existe poder para realizar estes sinais, se for necessário” (Sermão no Dias da Ascensão em 1522).
Já no Sermão da Ascensão em 1523, Lutero é mais claro ainda: “Por isso, devemos permitir que estas palavras permaneçam, sem diluí-las com as nossas explicações, conforme tem feito alguns que disseram que estes sinais eram manifestações do Espírito no início da era cristã, e que agora cessaram. Isso não é certo, pois o mesmo poder continua na igreja. E embora não esteja sendo exercido, não importa; continuamos tendo poder para realizar semelhantes sinais”.
Calvino, também não nega a possibilidade e até mesmo uma esparsa presença da ação carismática em seus dias. Comentando 1 Coríntios 12.14 ele diz que:“é difícil formular uma opinião sobre os dons e ofícios, dos quais a igreja foi privada durante tanto tempo, a não ser por meras sobras e sombras deles, que ainda se pode achar” (Coment. In 1 Corinthians).

Tratando do mesmo assunto em suas Institutas, ele diz: “Essa categoria não existe hoje, ou é vista menos comumente”. (Inst. IV. 3.4).


2) PROVA: IMPLICAÇÕES BÍBLICAS

Os objetivos apresentados pelo autor do artigo para o uso dos dons espirituais, com exceção do primeiro (confirmar um nova revelação), podem muito bem ser aplicados a igreja de hoje, pois não se restringem somente ao primeiro século.
Mas além dos objetivos apresentados, o autor deixou de fora um muito importante, a saber: A edificação mútua da igreja cristã, ou o proveito comum, como podemos deduzir de 1 Coríntios 12.7 e por extensão, todo o capítulo 12,13 e 14.
Mas objetivamente, em se tratando da glossolalia, o objetivo é expressamente manifesto em i Cor 14.4, ou seja "a edificação pessoal" do crente. A menos que afirmemos que os crentes contemporâneos não precisem mais de edificação, não se pode restringir o uso dos carismas somente ao primeiro século, com base nos objetivos dos fenômenos carismáticos.

Os demais textos apresentados não constituem prova alguma da suposta cessação dos carismas ou da glossolalia. Senão vejamos:
I Coríntios 13.8 diz que as línguas cessarão quando chegar aquele que é o Perfeito, ou seja, por ocasião da segunda vinda.
Hebreus 2.3-4: Ninguém nega que os dons serviram para testificar a mensagem evangélica que uma vez foi entregue aos santos. Nega-se, todavia, aquilo que o autor de Aos Hebreus não afirmou nem de longe, que é a cessação destes sinais ou a aplicação destes como objetivo unicamente de comprovação evangélica. A ênfase é na mensagem da salvação que foi entregue e não nos dons em si. Por isso, não há problema em ter o autor sagrado se expressado em termos gramaticalmente definidos.

Coríntios 12.11-12:Perceba que Paulo não diz que os sinais de seu apostolado consistem em "sinais, prodígios e maravilhas", e sim que a autenticidade de seu apostolado foi manifesta entre os coríntios "com" e "por" os dons sobrenaturais. . Os ‘sinais’ ou ‘marca’ de um apostolado estão no caso nominativo, ao passo que “sinais, maravilhas e milagres” estão no dativo.
Qual era a marca da autenticidade do ministério apostólico de Paulo? Ele mesmo o demonstra aos coríntios em 1 Cor 9.1-2:"Não sou eu porventura, livre? Não sou eu apóstolo? Não ví Jesus nosso Senhor? Acaso não sois fruto do meu trabalho no Senhor? Se não sou apóstolo para outrem, certamente, o sou para vós outros, porque vós sois o selo do meu apostolado no Senhor".Ou seja, o sinal da apostolicidade de Paulo era o fato dele ter visto o Senhor e a realização de sua obra de salvação em Corinto. A estes sinais, seguiram-se as manifestações sobrenaturais para confirmá-los; e não que consiste neles como diz o autor do artigo no site.



O ARGUMENTO CONSIDERADO "IRRESPONDÍVEL"

O argumento considerado "irrefutável" pelo autor do artigo é o que se segue: "Sinais miraculosos eram característicos, exclusivos, identificadores, restritos só aos 83 crentes (todos eles ex-judeus e que receberam os dons pessoalmente, dos lábios físicos do próprio Senhor quando em carne): os 11 apóstolos + Matias + Paulo + os 70 discípulos [NOTA]. Se tal não fora, Paulo não teria usado aqueles sinais miraculosos como provas que o diferenciavam como sendo um apóstolo (2Cor 12:11,12)."
Não consegO ver a suposta "irrefutabilidade" deste argumento, haja visto que os textos apresentados pelo autor não restringem o uso dos carismas somente aos apóstolos, nem tampouco aponta os carismas como "único" objetivo de confirmação de autenticidade apostólica.
Pelo contrário, a fórmula usada por Paulo em 1 Coríntios 12.8-10 para descrever a distribuição dos dons espirituais, nega tal assertiva: "Porque a um... é dado... e a outro... ". Pelo contexto, é impossível que Paulo estivesse se referindo a apóstolos, senão aos membros da congregação de Corinto.

NO MAIS, se Paulo considerasse que somente apóstolos poderiam ser usado nos dons, não se entenderia o porquê de ter dito frases como:"Procurai com zelo os dons espirituais" (1 Cor 14.1)."Assim, também vós, como desejais os dons espirituais, procurais abundar neles, para a edificação da igreja" (1 Cor 14.12)."E eu quero que todos vós faleis línguas estranhas; mas muitos mais que profetizeis" (1 Cor 14.5). De maneira que, se considerarmos o argumento "irrefutável" do autor como exato, teríamos que concluir que a igreja de Corinto tinha como seus membros os ilustres apóstolos citado na lista do autor.

3 PROVA: PARALELOS PAGÃOS

Se partirmos da premissa de que a glossolalia não é obra atual do Espírito Santo por se encontrar em ambientes não-cristão, então teríamos que negar quase tudo no cristianismo, haja visto serem encontradas paralelos de práticas cristãs em quase toda as religiões do mundo.
O autor poria em dúvida o operar de Deus através de Moisés diante do faraó, simplesmente pelo fato dos sacerdotes pagãos do Egito terem conseguido repetir os sinais operados pelo legislador da antiga aliança?
Vimos que os pais da igreja não desprezaram os carismas pela suposta prática deles pelos heréticos, mas os sustentavam dentro de uma perfeita ortodoxia.

Argumentos de que fenômenos semelhantes à glossolalia são constatados em ambientes pagãos tem sido o carro chefe daqueles que visam negar a realidade do fenômeno cristão. No entanto, os oponentes da autêntica glossolalia não deveriam se quer aceitar como verdadeira o fenômeno narrado na bíblia. De fato, cinco anos antes de Cristo, já se encontrava algo semelhante nos Oráculos de Delfos, onde o sacerdote caia em êxtase e falava palavras desconhecidas. Tais palavras eram traduzidas para a língua grega, em resposta a pergunta do inquiridor.


4-PROVAS PELA MEDICINA E PSICOLOGIA

Que base teria o autor para afirmar que os fenômenos pentecostais seriam "os mesmíssimos" apresentados em um estado alterado de consciência, ele deixou de relatar, mas somente o afirmou gratuitamente. O máximo que se pode deduzir das circunstâncias físicas e psicológicas por ele citadas é que algo semelhante acontece nestes casos. Fora isso, a medicina, a psicologia e a ciência como um todo nada tem a definir nesta questão.

5- CONFISSÕES DE FINGIMENTO

Os "fingimentos" sem dúvida acontecem. No entanto, isso seria suficiente para desacreditar da realidade do fenômeno? De forma alguma. Não se pode desacreditar na realidade da medicina, por exemplo, simplesmente por existirem pessoas que se fazem passar por médicos. Pelo contrário, filosoficamente, para que haja um falso, é necessário que exista um autêntico, pois do contrario, a existência do que é falso seria inconcebível.



6- PROVA PELA LINGUISTICA

Aqui, duas observações devem ser feitas:
a 1ª é que comparar a "glossolalia" com um idioma vernáculo é desproposital. Os textos sagrados se referem a ela também como "hetero glossa":outras línguas (At 2.4), "línguas estranhas" (1 Cor 14.2), incompreensível aos homens, e se aceitarmos 1 Coríntios 13.1, como "língua dos anjos" em contraposição à língua dos homens.
Isso subtende-se tratar-se não só de uma língua conhecida, mas de uma "língua" não vernácula, de maneira que sujeitá-la à análise de um idioma humano é totalmente inútil.
2ª - Paulo diz "fala a Deus... em Espírito fala de mistérios" (1 Cor 14.2). Ora "falar com Deus" é o conceito básico de oração. E em oração, poucas palavras fazem sentido. Em oração, "gemidos inexprimíveis" tornam-se significativos para o Pai (Rm 8.26).


Línguas estranhas são idiomas estrangeiros?

Aqui cabe analisar mais detalhadamente esta interpretação.

Línguas estranhas como "capacidade de se falar línguas estrangeiras" é uma posição adotada por alguns interpretes tradicionais, tomando como base, principalmente o fenômeno da "xenoglossia" apresentado em Atos 2.4-11.
No entanto, até os proponentes desta opinião encontram dificuldades em 1 Coríntios 14.2. Cito, para comprovação, a nota de rodapé da "Bíblia de Estudo de Genebra":
Nota sobre 1 Coríntios 12.10:
"A descrição apropriada deste dom tem gerado intensos debates. De acordo com certo ponto de vista, refere-se a alguma espécie de fala extática, possivelmente relacionadas às "línguas dos anjos", mencionadas em 13.1.Por outro lado, o Novo Testamento dá evidências explícita e inequívoca de que o Espírito Santo deu aos crentes primitivos a capacidade de falar em línguas humanas estrangeiras (Atos 2.4-11). “EMBORA OBJEÇÕES TAMBÉM POSSAM SER LEVANTADAS CONTRA ESSA OPINIÃO (14.2, nota), pelo menos ela pode ser apoiada por um precedente bíblico” (grifo meu).



Antes de analisarmos a questão, vejamos como a referida bíblia interpreta 1 Coríntios 14.2.:
'não fala a homens, senão a Deus... fala mistérios.""Este versículo (cf. o v. 14) descreve o dom de línguas de uma maneira que parece incoerente com o dom de falar em línguas estrangeiras, mencionado em Atos 2.4-11(embora alguns creiam que o milagre, no dia de Pentecostes, tenha sido um milagre de audição). Muitos argumentam que aqui Paulo está lidando com algo diferente – uma espécie de fala extática, usada nas orações íntimas (Rm 8.26). Contudo, a palavra aqui traduzida como “língua” é o termo grego normal que significa “linguagem”.Em segundo lugar, o uso que Paulo faz do termo “mistério” indica uma verdade divina que ainda não foi desvendada; e não tem o mesmo sentido do vocábulo português “mistério” (2.7, nota). Em terceiro lugar, os vs. 10-11, bem como o v.21, dão sustento a idéia que mesmo aqui, Paulo está falando sobre a linguagem humana (12.8-10, nota).”

O que dizer?



1.O FENÔMENO EM ATOS 2


.A narrativa de Atos 2.4-6. não pode ser considerada como uma capacidade dada pelo Espírito Santo aos apóstolos de ‘pregar’ em outro idioma. Primeiro porque naquela época isto seria desnecessário uma vez que, o grego koinê era a língua mundial falada por muito.
Segundo que, o povo que presenciou de fora os milagres de pentecostes eram todos “judeus” de todas as nações, e não estrangeiros que desconheciam a língua hebraica.
Terceiro que eles não ouviram ‘a pregação’ de Pedro em suas próprias línguas. Pedro pregou na língua dele mesmo, pois todos o entenderiam perfeitamente, como judeus que eram. Quando a bíblia diz que cada um os ouvia falar na sua própria língua (v.6), não se refere à pregação e sim “as grandezas de Deus” referindo-se às línguas como louvor de Atos 2.4, pois a pregação de Pedro veio depois.



2."GLOSSAIS" e "DIALEKTOS"


.Ainda que em alguns casos o termo grego “glossa” possa indicar idioma ou linguagem, é evidente que o autor de Atos faz distinção usando ‘glossa’ como um termo técnico para indicar o fenômeno sobrenatural, e o termo “dialektos” para indicar ‘idioma’ normal. Ato 2.4 diz que todos “falaram em outras línguas” (lalein heterais glóssais), enquanto Ato 2.6 afirma que “... cada um os ouvia falar ‘na sua própria língua’ (dialekto lalounton aitom)”. Veja o distinto uso de “dialektos” em Atos 1.19; 2.6.8; 21.40; 22.2; 26.14.

3. 'GLOSSA' NO NOVO TESTAMENTO


.O termo ‘glossa’ aparece no Novo Testamento como ‘órgão da fala’ (Mc 7.33; Rm 3.13; 14.11; 1 Cor 14.9...). Quando usado como ‘idioma, língua’ aparece frequentemente com os termos ‘phule’(tribo), ‘laos’(povo), ‘ethnos’(nação) (cf. Ap.5.9; 7.9; 10.11;11.9;13.7;14.6;17.15). É possível que ‘glossa’ como dom sobrenatural tenha o sentido de ‘idioma’ existente na terra, pois isto está perfeitamente de acordo com um dos aspectos deste dom, mas não é o único.



4."HETEROGLOSSAIS" e não "ALLOSGLOSSAIS"


De fato, quando se refere ao fenômeno das línguas os autores sagrados não usam o termo “allos glóssais” e sim “heteros glóssais” (cf. At 2.4). É sabido que “allos” e “hetero” apesar de significarem “outro” possuem uma diferença peculiar. O termo ‘allos’ expressa uma diferença numérica e denota “outro do mesmo tipo” (cf. Jo 14.16). Já “heteros” expressa uma diferença qualitativa e denota “outro de tipo diferente”. Veja Romanos 7.23, onde Paulo se refere em seus membros haver ‘outra (heteros) lei’, diferente da do ‘espírito de vida’. Tal distinção é mais evidente nas palavras compostas de ‘heteros’ como “heteroglossos” ‘outras línguas’ (1 Cor 14.21); “heterodidaskaléu” ‘ensinar outra doutrina’(1 Tm1.3;6.3); “heterozugo” ‘prender-se a um jugo desigual’, ou seja, de caráter diferente (2 Cor 6.14).

5. 1Cor 14.10-11. SUSTENTA TAL INTERPRETAÇÃO?


As palavras de Paulo em 1 Coríntios 14.10 – 11 não nos permite julgar que ele considerava as línguas como mais um idioma existente. Paulo faz uma comparação para demonstrar o valor das línguas com entendimento, da mesma forma que antes faz uma comparação com os sons dos instrumentos musicais (cf. 14.7-8). Ora, assim como ninguém diz que as línguas da igreja primitiva eram ‘sons instrumentais’ pela comparação feita, assim também não é possível concluir que Paulo estava comparando idioma aprendido com idioma aprendido. Em ambas as comparações o apóstolo conclui com “assim também vós...” (v.9 e v.12), dando a entender que ‘sons instrumentais’ e ‘as línguas falada na terra’ nada mais são do que instrumentos de comparação com a glossolalia, algo totalmente diferente.

6. "Orar em línguas" e não "pregar em ínguas"
Um outro fato que não condiz com a interpretação de ser a glossolalia apenas capacidade de falar em outro idioma se encontra em 1 Cor 14.14 onde Paulo diz: “Porque se eu oro em línguas estranhas, meu espírito ora bem, mas o meu entendimento fica sem fruto” indicando que este dom vai muito mais do que um simples diálogo ou uma pregação de verdades doutrinais num idioma não aprendido. É um dom para oração.


7. RESQUICIOS DE INTERPRETAÇÃO CATÓLICA


Esta interpretação aliás, tão defendida pela maioria das igrejas tradicionais, não passa de uma antiga opinião católica romana dada por Tomás de Aquino. De fato, esse teólogo católico diz:"Quanto ao dom de línguas, devemos saber que como na Igreja primitiva eram poucos os consagrados para pregar ao mundo a Fé em Cristo, a fim de que mais facilmente e a muitos se anunciasse a palavra de Deus, o Senhor lhes deu o dom de línguas"(Comentário a 1ª aos Coríntios, II).Ora, é interessante constatar que, enquanto os próprios católicos parecem ter abandonado esta interpretação Tomista (tenha-se em vista o movimento carismático católico), muitas das igrejas tradicionais protestantes se apeguem a ela com tanto zêlo.



7 Prova por ACAREAÇÃO

Não sendo um idioma nos moldes vernáculo, ou uma língua gramaticalmente constituída, a glossolalia não pode ser "traduzida", mas sim "interpretada" ou "entendida". Por tradução se entende o ato de explicar o sentido de uma ou mais palavras de uma língua estrangeira à uma língua materna do tradutor. Já por "interpretação" se entende o ato de explicar o significado de um ato ou palavra que num primeiro momento, não se revela de forma clara, ainda que seja na língua materna. Daí se diz interpretar sonhos e não "traduzir" sonhos ou parábolas. Ora, é sabido que o fenômeno das línguas compreende dois aspectos: A xenoglossia, que pode ser "entendida" ou "interpretada", mas nunca traduzida, pois não se traduz "mistérios". Neste caso, alguns teólogos sustentam que o milagre se daria nos ouvidos de quem ouve as línguas, como no caso de Atos 2.6.E a glossolalia que se manifesta como uma forma de oração diretamente a Deus, ou como evidência do Revestimento de Poder. Esta, não se tem interpretação, pois "não se fala a homens, mas a Deus".Ambas não podem ser jamais "traduzidas" no sentido estrito da palavra, como se concebe a tradução de um idioma. De tal maneira, esta suposta "acareação"(SIC), é uma prova insustentável e sem valor algum.